Roberto Muylaert: o primeiro cidadão irritado

Perto das redes sociais de hoje, a forma como Lutero disseminou suas teses era bastante limitada

Por O Dia

Rio - Em 31 de outubro foram comemorados os 500 anos da Reforma Protestante de Martinho Lutero, um monge agostiniano que dividiu a Igreja Católica a partir das 95 teses que afixou na porta da igreja de sua tranquila cidade de Wittemberg, no leste da Alemanha. Segundo a revista semanal 'Der Spiegel', Lutero foi "o primeiro cidadão irritado", que reagiu aos abusos da Igreja Católica, à qual ele pertencia, e gostaria que entrasse nos eixos. Lutero não pretendia criar uma nova igreja, mas corrigir algumas aberrações geradas em Roma e que desvirtuavam, segundo ele, o espírito dos ensinamentos de Jesus Cristo, em função dos interesses materiais da própria igreja e do papado.

Ao traduzir a Bíblia para o alemão, um texto literário de beleza reconhecida, e torná-la acessível a todos pela linguagem com que foi redigida, Lutero democratizou o ensino teológico e permitiu que o véu de mistério que acompanhou os textos em latim guardados a sete chaves pelo Vaticano fossem acessíveis a todos os fiéis.

Com isso, reforçou a importância da língua nacional. Em consequência, influenciou a forma pragmática e sem subterfúgios com que os alemães buscam soluções para suas questões como povo e nação.

Perto das redes sociais de hoje, a forma como Lutero disseminou suas teses era bastante limitada. Por outro lado, utilizou a prensa de Gutemberg, criada em 1450, como instrumento moderno para difundir as mensagens da Bíblia em alemão.

Como termo de comparação, a Igreja Católica só passou a rezar a missa no idioma de cada país, e não mais em latim, no pontificado de João XXIII, de 1958 a 1963.

O centro da revolta de Lutero contra a Igreja Católica era a concessão das indulgências plenárias, vendidas aos fiéis que tinham posses, para livrá-los do pecado mortal. Voltando ao contemporâneo, no Ano Santo de 1950, no Colégio São Luiz, em São Paulo, era oferecida indulgência plenária aos alunos que pudessem visitar o Vaticano naquele ano.

Como as passagens aéreas para Roma já eram muito caras, só os alunos das famílias abastadas puderam viajar. Com isso ficaram em grande vantagem espiritual em relação aos alunos menos abonados. Martinho Lutero definitivamente não ia gostar disso.

Roberto Muylaert é editor e jornalista

Últimas de Opinião