Fernando Scarpa: consciência de todas as cores

Educação, erudição e intelecto, embora fundamentais, não definem o homem, não contêm o racismo que o inconsciente revela

Por O Dia

Rio - Morreu Zumbi há 322 anos, estamos de luto. É dia de comemoração e de tristeza. O Rei dos Palmares era pernambucano, considerado imortal, atraiu o ódio da coroa portuguesa, incomodada com o poder de resistência do último líder quilombola. A cabeça foi a prêmio, comprovando sua mortalidade. Não adiantou: morre o homem, fica a fama. O tiro saiu pela culatra, a barbárie o imortalizou. Na cidade do Rio de Janeiro, bem como em outras praças, lá está o busto, símbolo negro do Brasil.

A história é bonita; o tema, controverso. Ter consciência negra não é fácil, lidar com o preconceito arraigado nesses tempos do politicamente correto, menos ainda. Vivemos sob patrulhamento de raça, gênero, política, religião e caráter; os ânimos estão à flor da pele de qualquer cor. O preconceito é bala perdida, rivalizam 'ebony and ivory' as teclas do piano.

William Waack, às vésperas do Dia da Consciência Negra, escorregou feio e foi decepado. Não pelas mãos brancas portuguesas, mas, sim, pelas vozes afrodescendentes de dois colegas de trabalho, na parte técnica. A Rede Globo não perdoou: cortou-lhe a cabeça em ato contínuo.

Por trás das câmeras, o jornalista desrespeitou empresa e público. O premiado pelo Esso ganhava naquele momento o troféu preconceito, do lugar-comum. A espontaneidade é o ser da verdade, a cultura tem função de conter os impulsos primitivos, e a sociedade de plantão pune comportamentos inadequados e tudo foi infalível.

Educação, erudição e intelecto, embora fundamentais, não definem o homem, não contêm o racismo que o inconsciente revela. O dramaturgo Nelson Rodrigues sinalizava: moralistas são devassos. Nos bastidores, estava o naturalmente imperfeito jornalista e dois técnicos de plantão, não menos que ele. Estavam ávidos por devassar o preconceito do apresentador, tão bem ocultado na fala empostada e nos ternos elegantes dissonantes do pensamento.

Expressões públicas de verdades são mal-vindas, e o jornalista ficará eternamente manchado. Este foi o black friday da sua vida: uma carreira construída por anos entrou em liquidação. Mas, convenhamos, afinal, todos escondemos pensamentos feios e hoje é Dia da Consciência, não só das cores. A sua está limpa?

Fernando Scarpa é psicanalista

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