João Baptista Ferreira de Mello: Monalysa do Piauí para o Miss Universo

Da cor de canela, Monalysa é do Brasil, quem dera, quem sabe, do Universo

Por O Dia

Rio - O cinema, a música, o esporte e os certames de beleza foram os primeiros a vencer as barreiras do preconceito social e do racismo?

Perseguida pelo terror avassalador da Ku Klux Klan, Hattie McDaniel foi agraciada com o Oscar de melhor atriz coadjuvante por 'E o Vento Levou', em 1940. O atletismo superou barreiras da discriminação com Jesse Owens, 1936, vitorioso em suas olímpicas competições na Alemanha nazista de Hitler. Na música, em meio a imposições criminosas, artistas negros triunfaram sobre seus detratores. E em 1964, Vera Lúcia Couto dos Santos, a "mulata bossa nova" da famosa marchinha, foi a Long Beach, nos Estados Unidos, classificando-se em terceiro lugar no Miss Beleza Internacional, sagrando-se pioneira na quebra de barreiras neste tipo de competição.

De lá pra cá, já são cinco misses Universo negras, mais Misses Mundo e da Beleza Internacional. Saudemos, pois, a nossa brava e corajosa Vera. Estamos falando de um tempo no qual os negros eram queimados vivos ou seus carros e casas, destruídos pela fúria racista.

Hoje esta página da discriminação estaria superada na nossa Terra de Santa Cruz? A julgar pelas redes sociais, as respostas são sim e não. A maioria apoiou e elogiou a beleza da nova Miss Brasil, Monalysa Alcântara. A representante do Piauí, pela vez primeira, alçou o seu estado ao patamar mais alto da beleza nacional. Mas charges e comentários plenos de deboche vicejaram como tem "cara de empregadinha". (Desqualificar é fácil, covarde e rude).

O concurso Miss Brasil mudou, há alguns anos, a sua concepção espelhando-se no modelo matriz do Miss Universo, cuja edição 2017 se celebra esta noite. Trata-se de um show de beleza, ritmo, cores, luzes e canções. As músicas, por vezes, muito longe do nosso país, não apresentam o toque da brasilidade necessário a este tipo de evento.

Negra Monalysa brilhou nas diversas etapas crescendo ao final com as respostas no tom irretocável de uma jovem culta cujos rodopios e pivôs lembravam, de alguma maneira, o da garça mais que perfeita e cheia de graça Vera Lucia Couto, no apinhado Maracanãzinho de outrora.

Se Miss Monalysa for agraciada com a faixa e a coroa este domingo, em Las Vegas, se juntará a outras Misses Universo, como Iolanda Pereira (1930), Ieda Vargas (1963), Marta Vasconcelos (1968), além de Lucia Peterle, Miss Mundo 1971.

Estamos na torcida. Monalysa é do Piauí e de toda gente brasileira. Da cor de canela, Monalysa é do Brasil, quem dera, quem sabe, do Universo.

João Baptista Ferreira de Mello é coordenador dos Roteiros Geográficos do Rio da Uerj

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