Kênia Freitas: Diretoras Negras no Cinema Brasileiro

Em um país cujo discurso hegemônico segue ridicularizando e apagando a existência das mulheres negras, a produção e ampla circulação das imagens e narrativas do cinema feminino negro é um campo de luta urgente!

Por O Dia

Rio - Novembro foi o mês da consciência negra no Brasil. Na teoria, um período no qual o país se dedicaria a pensar coletiva e nacionalmente as resistências históricas da população negra brasileira e os caminhos para a eliminação das desigualdades raciais ainda tão evidentes no país. Na prática, no entanto, nós, mulheres negras, recebemos em novembro dois ataques imagéticos violentos: as piadas e memes na internet contra a atriz Taís Araújo e uma foto maliciosamente enquadrada que expunha três jovens mulheres negras participantes da Marcha de Empoderamento Crespo em Salvador.

Os dois casos nos mostram o poder das imagens como discurso e da construção do discurso hegemônico que segue desvalorizando e ridicularizando a mulher negra. Os casos também nos fazem questionar o poder de quem produz imagens e de quem controla os circuitos onde essas circulam. E, por fim, nos lembram ainda da invisibilidade das mulheres negras no comando desses processos imagéticos e midiáticos.

Nas próximas duas semanas, a mostra Diretoras Negras no Cinema Brasileiro exibirá os filmes dirigidos por Adélia Sampaio, Carmen Luz, Carol Rodrigues, Ceci Alves, Danddara, Edileuza Penha de Souza, Elen Linth, Eliciana Nascimento, Everlane Moraes, Flora Egécia, Janaína Oliveira (Re.Fem), Juliana Vicente, Keila Serruya, Larissa Fulana de Tal, Lilian Solá Santiago, Renata Martins, Sabrina Fidalgo, Tainá Rei, Tatyana Prazeres, Viviane Ferreira, Yasmin Thayná, e pelas mulheres dos coletivos: Nós, Madalenas e Revisitando Zózimo Bulbul Mulheres de Pedra.

Essas obras e as suas realizadoras nos apresentam imagens e narrativas que não limitam as mulheres negras a um papel secundário ou a um olhar que nos exotiza e nos enquadra de forma pejorativa. São mulheres negras que filmam e são filmadas, imaginam e são imaginadas, criam e são criadas, construindo personagens (em sua maioria outras mulheres negras) com nomes, com histórias de vida, com diálogos complexos e profundidade. Construindo assim, em seus filmes, discursos e imagens que nos respeitam e celebram.

Em um país cujo discurso hegemônico segue ridicularizando e apagando a existência das mulheres negras, a produção e ampla circulação das imagens e narrativas do cinema feminino negro é um campo de luta urgente!

Kênia Freitas é crítica e pesquisadora de cinema