Júlio Furtado: como selecionar os melhores professores?

Ser tecnicamente competente é fundamental, mas não é suficiente para se classificar um bom professor. O compromisso com o outro e o olhar inclusivo são essenciais

Por O Dia

Rio - Li, dia desses, um artigo que denunciava o fato de os alunos mais carentes que se concentram nas escolas mais distantes dos grandes centros não terem o direito de estudar com os melhores professores, que, segundo o autor, são os aqueles que se classificam nos primeiros lugares dos concursos. A questão é que os docentes mais bem colocados ganham o direito de escolher primeiro as unidades e acabam por pegar as localizadas nos centros urbanos. Essa questão me leva a questionar se os melhores mestres são realmente os que se classificam no topo dos certames.

Os processos de seleção de professores sempre focaram quase exclusivamente os conhecimentos teóricos sobre os conteúdos e sobre os chamados conhecimentos pedagógicos. Isso compõe apenas a competência técnica do professor. Com raras exceções, concursos para o Magistério são compostos de provas escritas e avaliação de currículo. Partindo-se do princípio de que um bom professor possui competências técnicas, políticas e relacionais, parece-nos que as duas últimas não são avaliadas.

A competência política é composta do comprometimento do professor com seu papel de agente social de mudança, ou seja, do quanto o mestre se sente um transformador de vidas. A competência relacional é expressa através da capacidade de o docente construir vínculos afetivos que favorecem a aprendizagem dos alunos. Esses vínculos nascem do olhar que o docente lança para cada uma de seus estudantes. A experiência nos mostra, por exemplo, que professores podem ter grande conhecimento dos conteúdos específicos e dos processos didático-pedagógicos e não conseguir enxergar o aluno como um sujeito que tem direito à aprendizagem, que depende do quanto o docente se compromete com ela.

Muito além de remunerar decentemente nossos professores e dar a eles boas condições de trabalho, penso que precisamos encontrar uma forma eficaz de selecionar, de fato, os melhores em todas as suas competências. Ser tecnicamente competente é fundamental, mas não é suficiente para se classificar um bom professor. O compromisso com o outro e o olhar inclusivo são essenciais. Talvez nossos alunos de periferia não estejam perdendo tão bons professores assim.

Júlio Furtado é professor e escritor

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