Por gabriela.mattos

Rio - Ainda é incerto o destino do adolescente de 14 anos que se entregou à Polícia Civil, levado pelos próprios pais, dizendo ter matado a facadas o professor peruano Carlos Patrício Samanez, de 62 anos, no último domingo, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão. Só no ano passado, na 2ª Vara de Infância e Juventude da Capital, foram distribuídos 7.567 processos envolvendo apreensão de menores no Rio. Cerca de metade foi encaminhada para internação e a outra metade, liberada. O menor seguiu nesta sexta-feira para a Vara, após a Justiça conceder a busca e apreensão cautelar, pedida pela Delegacia de Homicídios da Capital (DH), que investiga o caso.

Os dados sobre o envolvimento de menores com atos infracionais em 2015 são alarmantes. Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), a apreensão de adolescentes no ano passado apresentou o maior número desde 2005: foram 10.262 encaminhados ao sistema socioeducacional — um aumento de 22,5% em comparação com 2014 —, do total de 11.590 levados para as delegacias de Polícia Civil. O professor foi cremado nesta sexta-feira e O DIA constatou um clima era de medo e insegurança na Quinta.

Adolescentes ignoram as regras e tomam banho no lago proibido%2C próximo do outro lago onde o corpo do professor foi encontradoMaíra Coelho / Agência O Dia

Morador da Mangueira, comunidade vizinha à Quinta, o adolescente contou aos pais ter cometido o crime. Levado por eles na quinta-feira para a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), foi encaminhado para a DH, onde, segundo o delegado Fábio Cardoso, admitiu ter sido o autor das duas facadas nas costas do professor. A Polícia Civil ainda investiga se ele está falando a verdade ou tenta, por alguma razão, ocultar a autoria do crime, e se alguma outra pessoa participou do assassinato. As circunstâncias do crime ainda não foram esclarecidas. O menor não soube dizer onde estão os objetos pessoais que o professor carregava no momento do assassinato e que desapareceram.

Em 2015, dois menores de 16 anos foram punidos pela Justiça com até três anos de internação pela morte, também a facadas, do médico Jaime Gold, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou que em 2013 havia 23,1 mil adolescentes privados de liberdade no país, a maioria cumpria medida de internação. O trabalho revelou que metade não frequentava a escola à época do crime e a maioria vivia com famílias consideradas muito pobres.

Só dois PMs e cinco guardas na segurança

A bucólica Quinta da Boa Vista sofre com a falta de policiamento e a invasão de moradores de rua, alguns aparentemente adolescentes, que cometem infrações, como uso de drogas, roubos e furtos. “Tem muito pivete que se esconde por essas áreas verdes e ataca os frequentadores”, disse a ambulante Luana Cristina, 23 anos, que trabalha no local.

“Não tem guarda municipal de dia nem de noite. O portão não fecha porque não tem cadeado. Fica aberto direto, inclusive de madrugada”, completou Sonia Santos, 50, dona de um quiosque. Segundo denunciam, apenas dois PMs fazem ronda no parque, que tem 155 mil metros quadrados.

A PM diz que reforçou o patrulhamento no local desde que o crime foi cometido, porém, não revela qual é o efetivo, limitando-se a informar que será mantido o mesmo durante a semana e aos sábados e domingos, quando o número de visitantes duplica.

A Guarda Municipal informou que cinco agentes atuam 24 horas dentro do parque. A fiscalização inclui ainda rondas motorizadas na área externa. Nos fins de semana, o patrulhamento é reforçado, destacou a GM.

Filho da vítima não crê em punição

Filho do professor assassinado, Cláudio Samanez, de 36 anos, tem dúvidas de que o adolescente apreendido seja, de fato, o autor do crime. “É um retrato do Rio de Janeiro. A gente sabe que é muito provável que tenha confessado, para assumir a culpa, porque é menor, para safar alguém. Provavelmente ele passará limpo (impune)”, disse, durante a cremação do pai, no Cemitério do Caju. “Não é o primeiro e não vai ser o último caso no Rio. A cidade vive uma guerra civil.”

Professor da PUC e Uerj, há 30 anos no Rio, Samanez morava na Tijuca e gostava de frequentar a Quinta. Na tarde do último domingo, saiu para passear com sua cadela e não voltou. “Meu pai nos levava desde criança para o parque, o zoológico... Ele adorava por causa do ambiente, do verde. Ele gostava de fazer exercícios físicos e levava minha cachorrinha”, contou o filho. O animal foi encontrado vivo no local.

Claudio ainda fez duras críticas à violência na cidade. “As conversas em casa eram sempre sobre a violência, mas ele amava essa cidade. Eu sempre falava com meu pai, ele me aconselhava a não reagir nos assaltos. Não acredito que ele tenha reagido”, acrescentou. Segundo ele, a mãe e a irmã já tinham sofrido assaltos. “Todos nós conhecemos alguém que já foi vítima”, disse.

O clima era de comoção entre amigos e colegas que compareceram à cerimônia. “Por que essa violência tão desnecessária? É preciso? Matar não justifica. Ele era querido, não só pelos chefes e colegas, mas pelos alunos. O Brasil não pode ser essa violência”, disse Menga Lubke, professora do Departamento de Educação da PUC-Rio.

Reportagem da estagiária Carolina Moura

Você pode gostar