Faetec é esvaziada na Vila Mimosa

Associação denuncia redução de cursos no projeto profissionalizante Dama das Camélias

Por O Dia

Rio - Desde o ano 2000, quando foi implantado o projeto Dama da Camélias, que capacitava as prostitutas na confecção de chapelaria, adereços, corte e costura para o carnaval, uma série de cursos profissionalizantes foi oferecida às garotas, até culminar na instalação de unidade da Faetec, em 2007, em um prédio da Associação de Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa (Amocavim). A parceria rendeu frutos. Centenas de moças se especializaram e mudaram de vida. Entretanto, essa história de amor está caminhando para um final pouco feliz.

Segundo a presidente da Amocavim, Maria das Graças Gonçalves, 64 anos, a unidade da Faetec da Vila Mimosa está sendo esvaziada. E elas não estão gostando nada disso. “Ninguém acorda, espreguiça e diz: meu sonho é ser prostituta. A gente quer que as mulheres sigam outro caminho e a nossa a intenção é capacitar as meninas, para que elas tenham alternativa”, afirma a Dona Graça.

Dona Graça%3A ‘Agora só temos aulas de espanhol%2C informática%2C maquiagem e cabeleireiro. Estamos chateadas’Ernesto Carriço / Agência O Dia

Segundo ela, até o final do ano passado, a Faetec da Vila Mimosa oferecia 11 cursos para a comunidade. “Agora ficamos com apenas quatro cursos: espanhol, informática, maquiagem e cabeleireiro. As meninas estão chateadas, porque a gente não está conseguindo atender a todas elas”, explica Dona Graça. Ela estima em 4 mil o número de garotas que trabalha na Vila, em sistema de rodízio, 24 horas por dia.

A Faetec, em nota, garante que não houve redução no número de cursos, nem de vagas na unidade: “nesta rodada foram ofertadas 448 oportunidades, número este, 40% acima da procura.”

Mas, não é o que diz Aline Esteves Pinto, 35 anos, 13 dos quais trabalhando na Vila Mimosa. “Estava aprendendo inglês, mas parei na metade porque acabaram com o curso e mandaram os professores embora. Para não interromper os estudos, tive que me matricular na Faetec da Mangueira”, conta Aline. Ela já concluiu quatro cursos profissionalizantes e sonha ser guia turístico. Uma das vantagens de as meninas poderem estudar perto do trabalho é que elas saem da Vila, assistem as aulas e voltam para atender a clientela. Além do mais, os professores tornaram-se conhecidos da comunidade e respeitam a condição das moças, evitando perguntas indiscretas. “A gente não pode constranger as meninas, se não elas fogem”, explica Graça.

A líder das meninas da Vila Mimosa reconhece que a instalação da Faetec na comunidade foi boa. “Mudou a vida de muita gente da própria comunidade e valorizou o bairro. Direcionar essas mulheres para o mercado de trabalho formal é um compromisso nosso e da sociedade”, afirma dona Graça.

'Não vamos ser manipuladas. Se for o caso, vamos despejar a Faetec'

Diferente das relações com os clientes, na parceria entre Vila Mimosa e Faetec, quem mete a mão no bolso são as garotas. A Fundação entra com os cursos, incluindo o programa de ensino e os professores, e as meninas disponibilizam um prédio, de três andares, cujo aluguel de R$ 1.250,00 é pago por elas.
Os desentendimentos com a Faetec se acirraram após a Fundação nomear um novo coordenador para a unidade, afastando do cargo a assistente social Cleide Almeida, pessoa de confiança das meninas.

“Acreditamos ainda numa solução negociada para esse impasse. As meninas precisam da Faetec, mas a nomeação foi um equívoco e nós não vamos ser manipuladas por políticos. Se for o caso, vamos despejar a Faetec da Vila Mimosa”, garantiu Cleide. As meninas da Vila aguardam uma posição da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação, cujo titular Gustavo Tutuca pediu prazo para resolver a questão. Enquanto isso, elas já procuram novos parceiros.

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