AA do Sul Fluminense resistiram à ditadura se encontrando em necrotérios

Assim, despistavam os soldados do Exército, que, alegando possível subversão ao regime militar, prendiam as pessoas que formavam pequenas aglomerações

Por O Dia

Rio - Grupos de Alcoólicos Anônimos do Sul Fluminense acharam uma maneira surpreendente para manterem seus encontros na época da Ditadura Militar: para impedir que a irmandade fosse extinta na região entre o final da década de 1960 e meados da década seguinte, alcoólatras em recuperação se reuniam em capelas mortuárias de asilos e até em necrotérios.

X.%2C de 70 anos%2C participou de reuniões em cemitérios nos anos 60. ‘Única forma de despistar o Exército’Francisco Edson Alves / Agência O Dia

Assim, despistavam os soldados do Exército, que, alegando possível subversão ao regime militar, prendiam as pessoas que formavam pequenas aglomerações.

“Foi uma forma cruel, mas corajosa e inteligente para enganar os militares. Simulando que estávamos velando corpos, não éramos incomodados”, lembra X., aposentado de 70 anos, uma das poucas testemunhas do assunto ainda vivas. Assim como outros colegas, ele preferiu não se identificar. “O anonimato é sagrado entre os frequentadores de AA”, justificou.

CASA DE REPOUSO

X. lembra de ter frequentado, no início da década de 1970, reuniões na capela mortuária da Vila Vicentina, uma casa de repouso para idosos existente no bairro Ano Bom, em Barra Mansa.

A versão de X. é confirmada por P., de 76 anos. “Fizemos várias reuniões no necrotério do Cemitério de Barra Mansa. Era comum depararmos com velórios na hora dos nossos encontros”, lembra. N., de 79 anos, diz que porões de igrejas e sacristias também eram locais alternativos para as reuniões secretas dos alcoólicos.

Para membros da organização de AA da região, a iniciativa corajosa dos pioneiros da irmandade foi fundamental para a sobrevivência e a posterior expansão dos grupos de alcoólatras em tratamento. Hoje, existem pelo menos 115 grupos em 22 municípios, entre Três Rios e Barra Mansa, com mais de dois mil frequentadores.

No Brasil, onde 11 mil pessoas morrem de cirrose anualmente por uso de álcool, existem 15 milhões de alcooátras. Dois milhões de viciados se salvaram em AAs nos últimos anos. No mundo há 97 mil grupos em 150 países.

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