Balsa é símbolo do descaso em quilombo

Municípios de Areal e Paraíba do Sul não chegam a acordo para reconstruir ponte levada em enchente há 11 anos

Por O Dia

Rio - Uma pequena balsa improvisada, guiada por uma corda, com tábuas precárias e latões de plástico, virou símbolo do descaso e desrespeito das autoridades e políticos do Centro Sul do estado para com a comunidade quilombola Boa Esperança, em Areal.

O rústico e perigoso meio de transporte, que já causou diversos acidentes, substitui, há 11 anos, uma ponte levada numa enchente sobre o Rio Fagundes. O rio fazia a ligação do bairro com Sebollas, distrito de Paraíba do Sul, do outro lado da margem. Cerca de 400 descendentes de escravos, ligados a 85 famílias, ficaram sem opção de locomoção.

Há uma década moradores de quilombo só contam com uma balsa improvisada para atravessar rioManuela Carreira / Divulgação

“Não aguentamos mais correr risco de vida. Idosos e crianças são os que mais sofrem para atravessar de um lado para o outro (aproximadamente 70 metros de distância) nessa geringonça”, lamenta Mônica Fonseca, de 33 anos. Ela ressalta que os moradores do quilombo precisam do comércio da cidade vizinha para adquirir roupas, acessórios e ração para animais.

Mônica conta que as prefeituras de Areal e Paraíba do Sul divergem sobre a responsabilidade da construção da ponte. “Só ouvimos promessas”, desabafa Mônica. Ela lembra que na semana passada um dos moradores perdeu uma moto, que afundou com o sacolejar da balsa.

Indignada, a empresária Manuela Carreira, que mora do outro lado do Rio Fagundes, em Paraíba do Sul, decidiu apoiar a luta dos quilombolas. “Dá pena ver o sofrimento desse povo e a inércia total das autoridades”, justifica Manuela. Na terça-feira, ela conseguiu fazer com que o prefeito de Areal, Flávio Bravo, fosse até a comunidade, acompanhado de vereadores. Alguns secretários de Paraíba do Sul compareceram. Eles se comprometeram a discutir juntos a obra, orçada em R$ 480 mil.

Em nota, a Prefeitura de Areal informou que “vem buscando junto a Paraíba do Sul a celebração de um Termo de Cooperação Técnica, que deverá ser aprovado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), já que “um município não pode fazer obra em outro”. O Governo de Paraíba do Sul deverá se manifestar na semana que vem.

Moradores cultivam terra

Boa Esperança é uma das 15 comunidades quilombolas existentes no Estado do Rio. A criação delas é amparada por lei (Decreto n.º 4.887, de 20 de novembro de 2003). A comunidade de Areal tem sua história iniciada em 1888, quando o fazendeiro Domingo Pereira da Costa doou suas terras para os escravos que tinha.

Na época, 15 famílias foram beneficiadas. Eles trabalhavam nas plantações do fazendeiro e, após a libertação, muitos deram continuidade ao cultivo de café, cana, milho, para sobreviverem. Os que permaneceram ali se desenvolveram e criaram seus filhos passando para as gerações futuras seus conhecimentos e tradições.

Hoje, a quarta geração da família Fonseca, a maior do local, vive ainda da terra, assim como os descendentes de outros escravos. Plantam tomate e fazem rapadura de mamão, uma de suas tradições. Outro costume são as festas do maracujá, de Nossa Senhora da Conceição, e outras, em homenagem a diversos santos, sempre com fogueiras e foguetórios.

População planeja protestos

Boa parte dos moradores de Boa Esperança trabalha em sítios, chácaras e propriedades localizadas do lado de Paraíba do Sul. Por isso o movimento na arriscada travessia é intenso todos os dias. O Rio Fagundes é divisa natural entre Areal e Paraíba do Sul.

“Enquanto os dois governos ficam de picuinha, quem sofre são os moradores. Nada os comove, nem mesmo o risco de mortes”, lamenta o caseiro Jolimar Coimbra, de 53 anos. Ele acrescenta que se a situação não for resolvida em breve, os moradores estão dispostos a fazer uma série de protestos nas ruas e em frente às prefeituras das duas cidades.

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