Peritos afirmam que houve erro no projeto estrutural de ciclovia

Segundo o ICCE, plataforma da via que desabou estava apenas apoiada nos pilares e não amarrada como deveria

Por O Dia

Rio - "Um erro primário”. Assim o diretor do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), Sérgio William Silva, classificou a causa do desabamento de parte da ciclovia Tim Maia, que matou duas pessoas. Informações preliminares do laudo da perícia, divulgadas nesta quarta-feira, confirmam que o projeto estrutural foi subdimensionado e ignorou a força de um choque das ondas de baixo para cima na plataforma. Por isso, a base estava solta sobre os pilares de sustentação e sem amarras, como deveria.

Os peritos constataram que o projeto executivo da obra, contratado pela prefeitura ao consórcio Contemat/Concrejato, que pertence à Concremat Engenharia, previa somente o choque das ondas sobre os pilares. Vinda por baixo, a onda atingiu a pista, que tombou sobre as pedras e se partiu.“Não houve previsão, não houve cálculo algum. Se a plataforma fosse amarrada, o acidente poderia ter sido evitado”, afirmou Liu Tsun, chefe do serviço de Engenharia do ICCE.

Peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) analisaram o projeto estrutural da Ciclovia Tim MaiaMaria Inez Magalhães / Agência O Dia

Segundo Sérgio William, o resultado da perícia descarta a chance de o erro ter sido na execução da obra, também realizada pelo consórcio. O laudo deve ser concluído até segunda-feira. “Os cálculos deveriam ter sido superdimensionados, o que talvez fosse muito difícil de se fazer”, ressaltou.

Em nota, o consórcio Contemat/Concrejato afirmou que “a ancoragem (amarração) da pista ou qualquer solução equivalente não constava nem no projeto básico (elaborado pela Prefeitura do Rio) nem no edital de licitação”. O consórcio acrescentou que “a ciclovia com ancoragem para suportar o tipo de fenômeno ocorrido no dia 21 de abril demandaria um projeto básico com características totalmente diferentes, com pilares e vigas com outros requisitos”. O grupo frisou ainda que executou integralmente todos os requisitos técnicos fornecidos pela contratante.

Para o professor do Departamento de Engenharia Civil da PUC-Rio Daniel Cardoso, o esclarecimento do consórcio soou como admissão de culpa. De acordo com o especialista, é dever da empresa contratada para elaborar o projeto executivo corrigir equívocos do projeto básico.

“A única função do projeto básico é servir como elemento complementar para uma licitação. É basicamente para orientar as empresas concorrentes a darem o preço (do serviço). A responsabilidade pela obra é de quem faz o projeto executivo e de quem constrói”, aponta o engenheiro..

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Guarda corpo sem parafusos

Os peritos, que estiveram no local três vezes, apontaram que a Contemat Engenharia e Geotecnica S/A e a Concrejato Serviços Técnicos de Engenharia S/A terceirizaram serviços. O trecho que desabou tinha apenas uma viga, enquanto os demais possuíam duas. Segundo os técnicos do ICCE, isso ocorreu porque a empresa Engemolde, que forneceu os pilares e lajes usados na construção, não teria conseguido produzir uma viga com a extensão necessária para o trecho atingido. Com isso, o consórcio contratou a Premag, que usou apenas uma.

Além disso, no guarda-corpo, faltaram parafusos previstos no projeto executivo. Segundo Liu Tsun, não é possível afirmar se esses fatores teriam evitado a queda: “O fato é que o problema não foi previsto”. A Engemolde diz que o trecho que caiu foi executado por outra empresa. Já a Premag vai aguardar o laudo final para se pronunciar.

Coppe só recebeu dados há quatro dias

A prefeitura reforçou que “em qualquer licitação, o projeto básico é apenas conceitual e serve como referência para o desenvolvimento do projeto executivo, que traça todo o detalhamento técnico para a execução da obra”.

Após reportagem do DIA informar que Secretaria de Meio Ambiente não foi consultada na obra, a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente instaurou inquérito para apurar se o projeto atendeu normas ambientais. A Coppe/UFRJ, contratada para periciar a obra, disse que só recebeu os documentos necessários do município na segunda-feira. O Crea e a Fundação Geo-Rio não querem se manifestar antes da conclusão do laudo.

?Com reportagem do estagiário Caio Sartori

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