Devido à crise financeira que assola o estado, Faetec estava sem seguranças

Campus seria ‘rota de fuga’ de criminosos dos morros Dezoito e Fubá, diz funcionária

Por O Dia

Rio - Tiros, pânico, roubo de carro e uma professora baleada. As cenas de terror aconteceram ontem, dentro do estacionamento da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), em Quintino, Zona Norte do Rio. Por problemas de caixa do governo do estado, que mantém a unidade, a escola estava sem seguranças. Segundo alunos e funcionários, pelo menos 16 bandidos invadiram área do colégio pela mata para fugir de uma operação da Polícia Militar. A corporação, no entanto, nega que a ação. 

Janete Nascimento Rosa, de 56 anos, diretora administrativa da Escola Especial Favo de Mel, que funciona dentro do campus da Faetec, foi atingida de raspão por dois tiros no abdômen. A vítima, mesmo baleada, dirigiu até uma Clínica da Família que fica perto da escola. Ela foi transferida e está internada no Hospital Carlos Chagas em estado estável.

PM fez blitz na porta da unidade da Faetec%2C que estava sem segurançaDivulgação

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De acordo com funcionários da Faetec, Janete tinha acabado de ligar o carro quando foi surpreendida por bandidos armados de pistolas e fuzis. Eles tinham saído pela mata, que fica nos fundos do campus. A diretora teria tentado acelerar o veículo, quando foi atacada. Pelo menos cinco tiros atingiram a lataria do carro. Em seguida, o bando roubou outros dois carros, um deles de um aluno de música.

TRANCADOS EM SALA DE AULA

Houve correria e alguns estudantes ficaram trancados em salas de aula por medidas de segurança. Na fuga, 14 homens se dividiram em dois carros e outros dois bandidos deixaram o local a pé e ainda roubaram duas motocicletas a poucos metros da unidade. “Próximo à Janete tinha uma aluna autista, que por pouco não foi atingida. Atiraram para matar a Janete. Não sei como ela escapou do tiro de fuzil”, comentou, assustada, a amiga dela e membro da diretoria, Verônica Araújo Cruz, 39.

Nos fundos da Faetec, onde não tem muros que cerquem o local, há duas comunidades próximas: os morros do Dezoito e Fubá. “Os criminosos podem ser destas comunidades. Não fizemos operações nestes locais. Faremos blitzen diárias e vamos intensificar o patrulhamento”, afirmou o comandante do 9º BPM (Rocha Miranda), tenente-coronel Ivan Araújo.

Há informações de que bandidos da Comunidade da Covanca, em Jacarepaguá, teriam fugido para a região durante uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope). Drogas, granadas, munição e um fuzil foram apreendidos.

Campus seria ‘rota de fuga’ de criminosos dos morros Dezoito e Fubá, diz funcionária

Na delegacia de Campinho, a 28ª DP, estudantes e funcionários da Faetec se mostravam preocupados com a onda de violência no campus, onde recentemente houve um caso de tentativa de estupro de uma jovem. “Abafam os casos, mas os alunos estão cansados disso. Não dá para estudar com medo de ser esfaqueada, baleada ou até estuprada”, lamentou uma estudante de 15 anos, que não quis se identificar.

Vítima dos criminosos que balearam a diretora Janete Nascimento Rosa, quatro estudantes demonstravam medo ao voltar ao campus. Um deles, identificado como Joas Santos, 23, aluno de música, teve o carro roubado durante a fuga de ontem à tarde.

“Estava do lado de fora do carro. Tinha acabado de voltar do almoço quando dei de frente com sete bandidos. Eles apontaram uma arma grande para mim e pediram as chaves do veículo, que nem tem seguro. Estou desesperado, mas aliviado por não ter morrido”, contou o rapaz, que foi vítima do grupo momentos depois de a diretora ser baleada.

PM fez blitz na porta da unidade da Faetec%2C que estava sem segurançaSandro Vox / Agência O Dia

Segundo Rosangela Servazoni Gomes, 60, supervisora do Favo de Mel, o estacionamento da Faetec se tornou uma ‘rota de fuga’ para criminosos de morros próximos, como Dezoito e Fubá. Ela disse que as invasões de homens armados é comum. “Sempre houve isto no campus. Bandidos passam por aqui com fuzis. Ficamos impotentes. Antes do crime, ouvi barulhos de helicópteros sobrevoando a região. Não sei se estavam fugindo da polícia”, comentou.

Horas depois que a professora Janete foi baleada, policiais do 9º BPM (Rocha Miranda) fizeram blitz em frente à Faetec. Foram feitas abordagens e revistas a motociclistas e o policiamento foi reforçado com viaturas baseadas em pontos perto do campus.

Nas redes sociais, moradores compararam o bairro que não possui favelas pacificadas com outro da Zona Norte que, embora tenha Unidade de Polícia Pacificadora, constantemente registra tiroteios: “Quintino tá pior que o Lins, faixa de Gaza mesmo”.

‘Entra e sai quem quer da unidade’

No campus da Faetec em Quintino, onde há pelo menos oito prédios — entre eles o da Favo de Mel, onde a diretora baleada trabalha — não havia um segurança sequer nas entradas e saídas da unidade. Apenas vigias desarmados eram vistos em alguns pontos.

O novo presidente da Faetec, Alexandre Vieira, reconheceu que há problemas estruturais e disse que as melhorias dependiam da saída de estudantes que ocupam a unidade há três semanas. Ele prometeu um plano de segurança dentro de seis meses.

Para o especialista em Segurança Pública e fundador do Bope, Paulo César Amendola, é preciso pensar num esquema de segurança para todas as unidades do estado que não possuem segurança privada.
“Sem segurança, a Faetec vira ‘casa de mãe Joana’. Entra e sai quem quer. É preciso ter segurança privada e câmeras de vigilância espalhadas pelo campus”, lembrou.

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