O olhar de fora sobre um momento histórico no Brasil

Jornalista sueco conta o que viu em uma semana no Rio para cobrir mudanças políticas

Por O Dia

Rio - Acostumados com o frio de Estocolmo, capital sueca, o jornalista Lars Moberg e o cinegrafista Magnus Eriksson sentiram a temperatura subir em meio ao histórico processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff , há mais de três semanas, em Brasília. Em meio a centenas de jornalistas, se surpreendeu ao entrevistar Renan Calheiros, presidente do Senado. “Nós atacamos ele. E ele parou!”, lembra Lars. O jornalista achou curioso que só foi expulso do plenário do Senado porque não trajava terno e gravata. E, quando entrava ao vivo para a emissora Sveriges TV, sentia uma atmosfera carnavalesca, com pessoas soltando fogos de artifício. Mas as histórias que ajudaram a contar o drama dos brasileiros para o público sueco estava bem longe dali.

A equipe da maior emissora da Suécia, com 15 milhões de telespectadores, ficou sete dias no Brasil para mostrar o impacto da crise política e econômica no país na vida de pessoas comuns. Mas havia um pano de fundo: a Olimpíada.Depois de Brasília, os jornalistas suecos viajaram ao Rio. A menos de três meses do maior evento esportivo do mundo, procuraram sinais que indicassem a atmosfera dos Jogos. Encontraram só uma escultura de areia em Copacabana e uma vila olímpica em obras.

“Nem parece que a Olimpíada vai acontecer no Rio”, surpreende-se Lars, correspondente internacional há mais de três décadas.

Cinegrafista sueco Magnus Eriksson%2C da Sveriges TV%2C faz imagens da vila olímpica ainda em obras%2C na Barra da Tijuca%2C a menos de três meses do começo da Olimpíada no RioHerculano Barreto Filho / Agência O Dia

Lars quis se hospedar em um hotel longe de Copacabana, local escolhido pela maioria dos estrangeiros no Rio. Queria cruzar com gente comum e se integrar ao cotidiano da cidade, a 50 quilômetros de Itaboraí, onde encontrou a história que personificava a crise. Sede do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), que seria polo de refino da Petrobras para a América Latina, Itaboraí se preparou para uma prosperidade que nunca veio.

Alvo da operação Lava Jato, a Petrobras fez um balanço em 2014, estimando perdas de R$ 6 bilhões provocadas pela corrupção. Em fevereiro do ano seguinte, 2,5 mil funcionários foram demitidos no Comperj.

Em Itaboraí, a emissora sueca encontrou dezenas de placas de ‘aluga-se’, obras inacabadas, imóveis e hotéis abandonados. Um cenário de abandono personificado pela história do soldador Alexandro Lopes. Depois de demitido, ele se mudou para uma pequena casa numa rua de chão batido e hoje vende sacolés nos sinais de trânsito para sustentar a mulher e os dois filhos pequenos.

Em Duque de Caxias, o jornalista Lars Moberg entrevistou Suellen Cunha, mãe de Nathany, de 7 meses, que tem microcefalia. Ela contraiu o zika vírus durante a gestação num bairro humilde, com focos de proliferação do Aedes aegypti por todos os lados. Foi a primeira vez que a imprensa sueca contou esse tipo de história, num Brasil onde o drama cotidiano ajuda a revelar a crise do país para o mundo.

Cinco minutos com Lars Moberg, jornalista sueco: 'A situação é preocupante'

1. Qual a imagem do Brasil na Suécia?

— As pessoas na Suécia só sabem do Brasil por causa do futebol, das praias, das mulheres. Ir a Itaboraí talvez tenha sido o melhor exemplo de cidade atingida pela corrupção no Brasil, com a história do soldador do Comperj demitido que vende sacolés nas ruas para sustentar a família. Foi uma experiência forte, ver lugares fechados e falar com as pessoas sem perspectivas.

2. E a história do bebê com microcefalia?

— Foi a primeira entrevista feita pela imprensa sueca mostrando uma criança com microcefalia. E foi de cortar o coração.

3. Como você vê a situação do país?

— A situação é preocupante. O parlamento tem 28 partidos, mas são fracos e desorganizados. A impressão é de que os partidos são todos corruptos.

4. Como foi acompanhar o impeachment?

— Políticos mais corruptos estavam liderando o processo. As pessoas diziam: “Se tirar a Dilma, as pessoas que vão assumir talvez sejam piores”. Estava esperando mais das manifestações nas ruas. As pessoas agiam como se estivessem no Carnaval. Estavam felizes, soltando fogos. Estou surpreso com a corrupção no Brasil. É uma história triste.

5. Qual a impressão sobre os preparativos do Rio para a Olimpíada?

— Nem parece que a Olimpíada vai acontecer em menos de três meses no Rio. Será que tem relação com a crise política e o governo se preocupa com outras coisas, deixando a propaganda de lado? Talvez o Temer vá estar na abertura da Olimpíada. Estou curioso para ver como as pessoas vão reagir. Será que vão vaiar?

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