Peritos fazem paralisação por falta de limpeza no IML

Funcionários terceirizados estavam sem receber salários. Ator Thiago Lacerda chegou ao local para liberar corpo de amigo

Por O Dia

Rio - A grave crise financeira nos cofres do Estado do Rio fez o Instituto Médico Legal da capital (IML) chegar ao fundo do poço. Desde a noite de ontem a unidade no Centro passou a não receber mais corpos por falta do serviço de necrópsia. Os cadáveres serão destinados a outras unidades, como Campo Grande, na Zona Oeste, e Duque de Caxias e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Os peritos suspenderam os atendimentos por falta de limpeza. Há 14 dias, o local também teve os serviços paralisados por 24 horas.

Nesta terça-feira, por volta das 19h, seis corpos ainda não tinham sido liberados. Segundo parentes, a espera demorou por um dia. O serviço de necrópsia foi interrompido porque os funcionários terceirizados da limpeza foram demitidos. Eles estavam sem receber há três meses e receberam o aviso prévio no último dia 18.

Ator Thiago Lacerda ficou surpreso com a situação ao chegar ao IML para liberar o corpo de um tio de consideração. Serviço foi agilizado depoisAlexandre Brum / Agência O Dia

Em nota, a Polícia Civil informou que tem se esforçado para o pagamento das empresas responsáveis pela limpeza. Até que seja regularizado o serviço, a necrópsia será feita em outros institutos. “O Departamento Geral de Polícia Técnico Científica informou que os peritos legistas alegam condições insalubres para a realização das necrópsias no IML no Centro e, por isso, até que seja regularizado o serviço de limpeza neste órgão, as necropsias serão realizadas nas unidades de Campo Grande, Duque de Caxias e Nova Iguaçu”, diz a nota.

Por volta das 15h40, o ator Thiago Lacerda chegou ao instituto para liberar o corpo de um ‘tio de consideração’, taxista que enfartou durante o trabalho na Tijuca ontem e foi pego de surpresa ao ser informado que o corpo não seria liberado por falta de necrópsia. Ao saber da chegada do ator, o diretor do Instituto, Reginaldo Franklin Pereira, reuniu todas as pessoas no IML para informar que ele mesmo faria o serviço para agilizar a liberação dos corpos ainda nesta terça-feira.

“É uma constatação triste das condições de trabalho das pessoas do IML, da forma como o povo é tratado e de como nós, brasileiros, somos judiados. É um descaso absoluto, de estado de falência, uma vergonha. Faço um apelo ao governo para reconhecer o estado de emergência”, criticou Thiago Lacerda. “Apesar do estado de calamidade, percebi que há um esforço dos funcionários de atender ao povo”, ressalvou o ator. “Isso está um caos. É sujeira para todo lado. O odor é sentido de longe”, contou um funcionário.

Mais de 72 horas de espera

Apesar da promessa de fazer a necrópsia nos seis corpos que ainda estavam no IML na noite desta terça-feira, a jornalista Denise Martins, de 54 anos, deixou a unidade consternada. Ela conta que o corpo do padrasto José Maciel, 74, chegou ao local na noite de segunda-feira e só seria liberado após 72 horas. “Alegaram falta de necrópsia e a impossibilidade de eu liberar o corpo. Minha mãe tem 86 anos e não pode andar. Como vou fazer? Não tenho mais lágrimas para chorar. É uma falta de respeito não ter serviço por falta higiene. Esse é o nosso país?”, indagou.

Os problemas no IML do Rio não param na falta de limpeza. No portão de entrada não havia vigilantes na tarde de ontem. A guarita estava vazia e com as luzes acesas. Para a presidente da Associação dos Peritos dos Rio, Denise Rivera, com a distribuição dos corpos em Institutos Médicos Legais de Campo Grande e Baixada Fluminense, o problema não será resolvido.

“Os oficiais chegaram a fazer uma ‘vaquinha’ para manter o prédio limpo pelo menos uma vez na semana. Chegamos ao fundo do poço. Quando é feita uma necrópsia, se abre um cadáver e sai muito sangue, tem que haver uma limpeza e isso não estava sendo feito”, criticou. Ainda segundo ela, os outros IMLs do estado também sofrem com a falta de higiene. “Todos estão assim. Falta até material de trabalho”, disparou.

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