Quando a crônica policial ganhava tons românticos

Cláudio Vieira criou e adaptou 8 mil histórias para sua coluna diária, por 25 anos

Por O Dia

Cláudio Vieira recebia sugestões de histórias por telefone e até por cartaArquivo O Dia

Rio - Criar mais de oito mil histórias policiais, sem uma única morte, durante 25 anos e diariamente não é fácil. Mas não foi difícil para Cláudio Vieira. Pescado do quadro de repórteres do DIA pelo então editor-chefe Tassilo Mitke, em meados de 1985, Claudio Vieira ficou encarregado do ‘Romance Policial’, que iria mesclar casos verídicos acontecidos pelo Brasil afora e episódios criados pela mente atenta do autor.

“Quer morte? Vai procurar em outras páginas. Aqui, não”, justificava Vieira, atendendo aos leitores pelo telefone ou por cartas.

Léo Montenegro, do ‘Avesso da Vida’, tinha a cara dos seus personagens. Já o ‘Romance’ não deixava transparecer nunca algo parecido com a figura do Cláudio. Seu jeitão sério não combina com os tipos.

O jornalista conta que a identidade do leitor com a crônica era muito grande. Numa época em que não havia internet , muita gente telefonava para contar os casos vistos na rua, no trabalho e até mesmo no ambiente doméstico.

“Eles davam sugestões. Enviavam cartas”, recorda o jornalista. “E ficavam irritados quando eu deixava de satirizar alguma coisa que acontecera na véspera. Telefonavam reclamando. Outros que se queixavam muito eram os portugueses. E me xingavam. Teve um que disse: ‘Se o teu sobrenome é Vieira é porque tens sangue português nas veias, ó. Portanto, és um!’ Adoro portugueses, mas não posso perder a piada. Faz parte.”

O talento de Cláudio conseguia tirar histórias hilariantes de situações que deveriam ser dramáticas. Esse era o desafio diário do cronista, vencido com folga, como prova o sucesso alcançado pelas tramas criadas por ele.

Policiais, delegados, vítimas e até bandidos surgiam em cada episódio de uma forma bem diferente do que era visto no noticiário. Tornavam-se pessoas com emoções, tristezas e alegrias acompanhadas com avidez pelos leitores.

A direção do jornal sempre realizava pesquisas para procurar saber o gosto, o interesse, um raio-X do comprador daquele exemplar. O ‘Romance’ e o ‘Avesso’ estavam sempre no alto das respostas positivas. Era um tempo em que Cláudio Vieira, Léo Montenegro e também o autor deste texto tinham cabelos pretos...

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