Índios dão seu ‘jeito’ em conjunto habitacional

Famílias trabalham fora e sonham em voltar à Aldeia Maracanã, prédio de onde foram retirados para virar um centro cultural, mas que está sem obra até hoje

Por O Dia

Rio -  O sonho em transformar o Museu do Índio, perto do estádio do Maracanã, em um Centro de Referência da Cultura Indígena já está fazendo dez anos. O local que foi palco de luta entre o Poder Público e índios, que de 2006 a 2013 ocuparam o antigo prédio do Ministério da Agricultura, está abandonado e sem perspectiva de receber obras de revitalização.

A promessa era que o local receberia intervenções indígenas durante a Olimpíada, mas a ideia ficou apenas no papel. Mesmo assim, as 20 famílias indígenas que atualmente vivem em um conjunto habitacional do projeto ‘Minha Casa, Minha Vida’, no Estácio, não perdem a esperança.

Pataxó critica gasto com obra do Maracanã e abandono do museuSandro Vox

“Na Aldeia Maracanã era uma troca de conhecimentos. Lá, tínhamos uma oca, uma horta, havia um contato com a terra. Estudantes iam pra lá aprender mais sobre a cultura indígena, recebíamos índios de diversas partes do Brasil e agora não temos mais nada disso”, desabafa a índia Niara do Sol, de 66 anos.

Com a perda da Aldeia Maracanã, os índios não possuem mais espaço para plantar, cantar e produzir artesanato, que também era vendido no local. Muitos não conseguem trabalho e, mesmo com as dificuldades, tentam “dar um jeito” para pagar as contas no fim do mês.

“Eu dou palestras em escolas e universidades. Minha esposa e minhas duas filhas trabalham fora. As famílias não recebem ajuda de custo”, conta o cacique Carlos Tukano.

Em meio às dificuldades, tem gente que ainda produz artesanato, mas devido à falta de ponto estratégico, a venda foi prejudicada. Outros colocam em prática técnicas de massagem, produção de óleos, e desenvolvem outras atividades para tentar arcar com as contas de luz, gás encanado e condomínio, além do gasto com comida e serviços.

As obras do Museu do Índio estão suspensas desde o ano passadoEstefan Radovicz / Agência O Dia

Uma das lideranças da Associação Indígena Aldeia Maracanã (AIAM), Arassari Pataxó, oriundo da aldeia Barra Velha, na Bahia, se diz desacreditado quando se fala da Aldeia Maracanã. “De um lado tem o estádio restaurado com gastos milionários. Do outro lado, tem a pobreza que é o nosso prédio, que também deveria ser valorizado, mas está lá caindo aos pedaços”, lamenta.

Sem previsão de retomar as obras

Representantes da AIAM se encontraram semana passada com o secretário municipal de Cultura, Júnior Perim, para saber como vão ficar as intervenções urbanas dos indígenas durante a Olimpíada. “O secretário se comprometeu em articular com o Comitê Olímpico, Força Nacional, entre outros, e identificar uma possibilidade de intervenção dos índios durante os Jogos, mas ainda vai dar a palavra final”, diz o indigenista Toni Lotar.

Apesar da esperança dos índios em reaver o espaço, ainda não há previsão de quando o prédio será restaurado e de quando os índios poderão ocupar o local. Segundo a secretaria estadual da Casa Civil, desde o ano passado o governo do estado e a Concessionária Maracanã estão em negociação do aditivo de reequilíbrio orçamentário. Até que seja redefinido o escopo e o cronograma, as obras em todo o Complexo Maracanã estão suspensas.

Arassari Pataxó culpa o governo do Rio pelo abandono em que se encontra o prédio, mas não desanima. “Estamos numa luta profunda e não vamos desistir”, decreta.


Reportagem da estagiária Julianna Prado

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