Um dos orgulhos do DIA é ter Luarlindo Ernesto abrindo o noticiário

Prestes a completar 73 anos, 58 deles vividos nos principais jornais e revistas do país, jornalista é único até no nome

Por O Dia

Ele chega cedo à redação sabendo tudo que está acontecendo no estado. Cheio de fontes%2C desvenda casos e não deixa uma notícia fora da pautaArquivo O Dia

Rio - O jornal mais carioca do Rio completa 65 anos com o privilégio de ter em suas páginas, no DIA Online — e na redação — o mais experiente e carismático repórter investigativo do jornalismo brasileiro. Prestes a completar 73 anos, 58 deles vividos nos principais jornais e revistas do país, Luarlindo Ernesto da Silva é único até no nome.

“Meus pais me sacanearam. Nasci num 13 de agosto, numa enchente na Praça da Bandeira. Não tinha nenhum luar lindo naquele dia. Mas dei o troco nos meus pais”, brinca o sempre bem-humorado Luarlindo, que, não perca a conta, trabalhou também nos jornais O Globo, Folha de São Paulo, Correio da Manhã, Diário de Notícias, Luta Democrática, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil, O Jornal e nas revistas Manchete, Fatos e Fotos, Amiga. Luarlindo também deixou sua marca em programas de TV como Globo Repórter e Fantástico, da Rede Globo.

Há 26 anos no DIA (é sua terceira passagem pelo jornal), Luarlindo é sempre o primeiro a chegar à redação, pontualmente às 6h, e com um entusiasmo juvenil, um bom humor contagiante e um faro jornalístico apuradíssimo. E raro.

“Normalmente, jornalista não é notícia. Mas a ideia da matéria com Luarlindo, além de representar a homenagem que toda imprensa do Rio gostaria de fazer a ele, é revelar ao leitor o modelo de profissional competente e dedicado que mantém O DIA vibrante ao longo de seis décadas e meia”, explica o Editor-Chefe Francisco Alves Filho.

O legado de Luarlindo Ernesto extrapola as páginas deste jornal. Em plena atividade, ele ainda inspira e orgulha colegas, inclusive na concorrência.

“Quando chefiei a reportagem de O DIA, na década de 90, tinha uma única razão para gostar de chegar às seis da manhã no jornal: encontrar Luarlindo na sala de apuração.E, naquele horário, ele já tinha o controle completo da situação. Sabia o que era notícia de Santa Cruz à Urca. A salinha que ele ocupava, aliás, era uma espécie de Praça São Pedro, para onde todo mundo ia pedir sua bênção. E Luarlindo, que de santo não tem nada, contava mil histórias e bendizia a todos com seu mantra preferido:'Brahma na jogada!'. Luarlindo é daqueles que fazem o jornalismo ter alma, ser Ciências Humanas e não Exatas", diz Octavio Guedes, Diretor de Redação do jornal Extra.

Presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Domingos Meirelles, aos 76 anos, conta que foi estagiário de Luarlindo no extinto e emblemático ‘Ultima Hora’, periódico que mudou os paradigmas da imprensa brasileira sob o comando de Samuel Wainer.

“Ele é um dos últimos exemplares de uma geração de ouro do jornalismo. E conserva a mesma jovialidade, o mesmo humor de quando tinha vinte anos. Luar é um cara especial”, elogia.

Editor de Projetos Especiais da Rede Globo, Marcelo Moreira foi outro a passar pelos ensinamentos de Luarlindo Ernesto no DIA.

“Jornalista como ele não existe mais. Sabe tudo o que acontece na cidade. E tem um humor como nunca vi igual. Sou fã. Ele foi e continua sendo a inspiração para muita gente”, diz Moreira.

Os colegas ao longo da carreira são incontáveis. Os amigos também. Um deles é Alberto Brandão, outro que marcou época nas Rádios Tupi, Globo e Nacional por quase 50 anos, onde ficou conhecido como "o repórter que não deixa você na mão".

“Luarlindo tem uma bagagem monstruosa. É o maior contador de casos que conheço. Um dos mais competentes jornalistas que vi na minha vida. Um companheiro de vida e de profissão. E um grande sacana. Foi ele quem criou o Plantão de Notícias, aquele espetáculo hoje tocado pelo Maurício Menezes, que conta os 'causos' da nossa profissão. Só que o Luar não queria saber de peça, mas de redação. E o Maurício deu prosseguimento”, revela Brandão.

Maurício Menezes é outro fã de Luar. E reconhece a importância do jornalista não apenas para a imprensa brasileira, mas para sua vida profissional. E particular.

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"Conheço Luarlindo há uns 30 anos. Muita vezes parei para pensar o que faz com que as pessoas levem a sério um cara como ele, um gênio da ironia, da gozaçao, da chacota. Um sujeito capaz de nos mostrar o inusitado toda a vez que abre a boca. Cheguei à seguinte conclusão: é impossível concluir alguma coisa. O cara é genial. Luarlindo é o Woody Allen da imprensa brasileira. Se eu tivesse que pagar 10 centavos cada vez que me diverti com ele, deixaria arruinada as próximas cinco gerações de Menezes!", brincou.

Luarlindo, querido, você achou que aquele papo da sexta-feira fosse para o livro que vou escrever. Te enganei. Era para fazer esta surpresa quando você abrir O DIA Online em casa, esta justa homenagem que nós devemos a você, que tanto nos ensina e estimula. Bom domingo e obrigado por tudo.

"Vou morrer na redação de um jornal. Morrer em casa é chato demais"
Luarlindo Ernesto, em depoimento a Caio Barbosa

Meu nome é Luarlindo porque meus pais me sacanearam. Nasci no dia 13 de agosto de 1943 num noite de enchente na Praça da Bandeira. Não tinha luar lindo nenhum. Só uma chuva dos infernos. Mas eu dei o troco nos sacanas. Sou filho de um banqueiro de jogo de bicho e uma dona de casa. Mas nunca soube jogar no bicho. Só jogo na loteria. Comecei na ‘Última Hora’ com 14 anos por castigo do meu pai, para não jogar bola de cueca na rua. Toda vez que jogava, acabava na polícia. Aí ele me colocou para trabalhar no jornal, que era na Rua Sotero dos Reis, onde hoje é a Vila Mimosa. Era ao lado de casa. Já me passei por mendigo, lixeiro e até soldado da PM para fazer boas matérias. Foi assim que conquistei meus três Prêmios Esso. E trabalhei com o Barão de Itararé também. Tenho garra para trabalhar e história para contar.

Hoje fico triste apenas em ver os amigos morrendo. Acho uma sacanagem porque ainda temos muito boteco para conhecer. Tenho diverticulite, duas hérnias, catarata, e um fígado zangado. E vou morrer na redação porque é o meu lugar. O corpo tem que ir para o IML. De casa seria muito chato. Se eu morrer na redação o enterro sai mais rápido e mais barato (risos). Mas não sei se vou durar muito. Fiz uma loucura recentemente e isso tem me preocupado: resolvi tomar juízo e larguei a esbórnia. Tô com medo de não prestar (risos).


"Um orgulho trabalhar ao lado de um gênio do jornalismo e do bom humor"
Caio Barbosa, jornalista

Quem lê algo sobre a competência e a proatividade do Luarlindo, aos 72 anos, acha que é mentira ou exagero. Não é. Luar é um muito mais que um jornalista conhecido e experiente. É competente, produtivo e necessário dentro do jornal O DIA. Ninguém faz o trabalho dele com a mesma rapidez e competência. Além disso, Luar é um exemplo de bom humor. De saber tirar da vida o melhor que ela pode dar. Nunca vi ninguém com tanta inteligência para o humor e para a sacanagem como ele. A presença de espírito é única. Certa vez, na redação, tivemos a infelicidade da notícia da morte do Lúcio Natalício, o Natal, outro jornalista da velha guarda que marcou época na cidade e trabalhava conosco. E de quem Luar era amigo íntimo. Eram unha e carne. No mesmo dia, morreram outros dois funcionários do jornal, dos setores comercial e industrial. Foi um dia muito difícil. Luar estava sentido. Mas quando chegou o terceiro email do RH informando mais um falecimento, Luar se levantou rapidamente, desceu as escadas, foi à portaria e avisou às recepcionistas: "por favor, se alguém vier perguntar por mim hoje, diga que eu já fui. Só pode ser o Zé Maria. Hoje ele tá danado. Já levou meu amigo Natal e mais dois. O próximo, com certeza, serei eu. E eu tô fora. Não quero ir agora, não", disse o Luar, às gargalhadas. Só ele é capaz de tamanha alegria e simplicidade diante das dificuldades e dores que a vida nos impõe. Sou fã em nível máximo

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