Maioria de moradores de comunidades do Rio aprova UPP

Pesquisa da FGV e UFMG mostra que comunidades temem fim do programa de segurança após os Jogos

Por O Dia

Rio - Apesar de aprovar as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), boa parte dos moradores de comunidades do Rio acredita que o programa de segurança acabará após os Jogos Rio 2016. Este foi um dos principais resultados da pesquisa ‘Dimensionamento dos impactos sociais das UPPs em favelas cariocas’, realizada em 20 das 30 áreas ocupadas por UPPs, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O estudo apontou que para 43,4% dos moradores, as UPPs vão acabar depois da Olimpíada.

“Para os moradores, as UPPs foram criadas apenas para os turistas por causa de eventos como Copa do Mundo, Jornada Mundial da Juventude e Olimpíada. Nas primeiras áreas de UPPs, na Zona Sul, houve mais cuidado, mais planejamento”, constatou Ludmila Ribeiro, professora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da UFMG.

Maior parte de moradores quer presença de PMs%2C porém%2C mais de 40% acham que é apenas para ‘inglês ver’Agência Brasil

Apesar do alto índice de moradores que acreditam que as UPPs foram criadas apenas para ‘inglês ver’, a pesquisa diz que a maioria (87,4% nas inauguradas entre 2008 e 2012 e 64,2% nas instaladas entre 2009 e 2014) quer a permanência do programa de segurança. “Os moradores querem que o projeto continue porque entenderam que houve melhora em alguns aspectos, principalmente nas unidades mais antigas, por causa dos serviços públicos e a violência em algumas dessas comunidades, que diminuiu”, disse Marcio Grijó, coordenador do FGV Opinião.

O estudo foi dividido em duas etapas: a primeira entre abril e junho de 2014, nas primeiras UPPs implantadas no Rio, chamadas de ‘antigas’: Andaraí, Babilônia, Borel, Cidade de Deus, Formiga, Jardim Batam, Providência, Santa Marta, Tabajaras e Vidigal. A segunda foi entre novembro de 2015 e janeiro deste ano nas UPPs ‘recentes’: Alemão, Barreira do Vasco/Tuiuti, Cerro Corá, Jacarezinho, Lins, Maguinhos, Pavão-Pavãozinho/Cantagalo, Rocinha, Vila Cruzeiro, Vila Kennedy.

Em mais de metade (56,6%) dos moradores de comunidades com UPPs ‘antigas’, 36,7% dizem que não houve melhora e 6,7% se mantiveram neutros. Nas chamadas ‘recentes’ 37,6% concordam, 50,9% acham que não houve melhora e 11,5% ficaram neutros. Na avaliação da UPP por comunidade, com notas de 0 a 10, as unidades ‘antigas’ tiveram média 6 dos moradores. Já as ‘recentes’ ficaram com 4,5. Entre as antigas, a UPP melhor avaliada foi a do Borel, com nota 6,8. A pior foi a da Cidade de Deus, com 5,1. Em relação às recentes, a melhor escolhida foi a da Vila Kennedy, com 6,8. E a pior foi a do Lins, com média 2,8.

Vice-presidente da Associação de Moradores do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, Kleber Miranda concordou apenas com um ponto da pesquisa: o da valorização dos imóveis. Mas com ressalva. “Agora está desvalorizando, os preços caíram. Quanto aos serviços públicos, temos problemas. Moradores pedem para trocar o medidor velho de energia e não trocam. Esgoto? Nem temos”, diz ele.

UPP está garantida, diz o governo
Em nota, a coordenação do programa das UPPs garantiu a continuidade do projeto, instituída por decreto em 2015. “Isso garante que o programa não será interrompido em caso de mudança de governo. O decreto também determinou o alinhamento ao conceito de segurança cidadã proposto pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a implementação de processos de monitoramento e avaliação da Política de Pacificação”.

Lideranças comentam os resultados
Idealizadora do Projeto Urerê, na Maré, Yvonne Bezerra de Mello acredita que as UPPs vieram como uma “solução mágica” para o problema da violência, e apesar do começo promissor, o desânimo de moradores veio porque muito pouco foi feito. “Muito pouca coisa mudou. Os serviços não aconteceram. Bocas de fumos continuaram a funcionar, e pouco a pouco, a bandidagem voltou. Nem a ocupação da Maré pelas Forças Armadas melhorou o clima de desencantamento”.

Para Yvonne e muitos com quem conversa, a falência do estado é um dos grandes motivos para acharem que após a Olimpíada, a violência virá com mais força. “As pessoas continuaram a conviver com homens armados”, disse.

Coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, Silvia Ramos disse que as unidades foram uma promessa para o público, pois reduziram a taxa de homicídios nas favelas e nas cidades. “A forma como os desafios que as UPPs enfrentaram foram respondidos, principalmente após a morte de Amarildo, contribuiu para chegarmos a esse ponto. Muitas questões do caso Amarildo não foram respondidas”, comentou.

Com a reportagem da estagiária Daniele Bacelar

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