Para especialistas, faltou instrução a agentes da Força Nacional

Ex-secretário nacional de Segurança sugere que equipes tenham um PM do Rio

Por O Dia

Rio - Especialistas ouvidos pelo DIA criticaram o fato de agentes da Força Nacional de outros estados não terem supostamente tido instruções suficientes antes da Olimpíada sobre as áreas dominadas por traficantes no Rio de Janeiro. Para eles, se os soldados tivessem um conhecimento maior do território, não teriam entrado por engano na Vila do João nesta quarta-feira.

Para o coronel da reserva da Polícia Militar e ex-secretário de Segurança Nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho, “faltou planejamento”, em relação a cálculos de riscos. Ele defende que cada viatura da Força Nacional deveria conduzir também um policial militar do Rio.

“São os policiais cariocas que conhecem bem as áreas de risco. Por isso seria de extrema importância que eles seguissem embarcados nas missões com os integrantes da Força Nacional. Os componentes da Força são de origens bem diferentes, com formações e disciplinas diferentes”, defende José Vicente, lembrando que habitualmente nenhum policial costuma confiar em GPS para trafegar em regiões que exigem maior atenção por conta da violência, pois podem ser induzidos pelo aparelho a entrar indevidamente em redutos de bandidos.

Carro da Força Nacional foi atacado a tiros na Vila do João%2C na Zona Norte%2C na tarde desta quarta-feiraDivulgação

Vinicius Domingues, presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança, concorda com José Vicente. “Quem não conhece os locais perigosos do Rio está sujeito a isso. É preciso ter policiais familiarizados com a topografia da região”.

Fundador do Batalhão de Operações Especiais (Bope), o coronel Paulo Amêndola também diz que o desconhecimento do terreno por parte dos policiais de outras localidades torna-se uma armadilha para os agentes. Ele, porém, não defende o fechamento de vias de acessos consideradas perigosas, conforme internautas passaram a sugerir nas redes sociais.

“Não é impedindo o sagrado direito de ir e vir dos cidadãos que a criminalidade será reduzida. A polícia tem é que prender os bandidos que há décadas estão nessas áreas e acabar com os pontos de vendas de drogas. Isso sim é fundamental”.

O coronel da reserva Paulo César Lopes, conhecido como ‘linha dura’, é radical ao defender uma “reprimenda imediata” aos bandidos. “Agora é ir com tudo para cima deles. O estado tem que se sobrepor a esses facínoras. Essa, infelizmente, é mais uma faceta da pacificação”, criticou. Até o fechamento desta edição, a Força Nacional não havia comentado o assunto.

Motoristas desavisados são alvos frequentes no Rio

A rotina de pessoas baleadas e mortas ao entrar equivocadamente de carro na Vila do João e em outras favelas conflagradas por traficantes no Rio e na Região Metropolitana é antiga. No dia 7 de julho de 2013, por exemplo, o engenheiro baiano Gil Augusto Barbosa, de 53 anos, morreu, depois de ter ficado internado por um mês, vítima de tiro na cabeça, ao errar o caminho e acessar indevidamente a Vila do João. Na época, uma parente que estava com Gil, que iria buscar a esposa no Aeroporto do Galeão, definiu o desespero enfrentado durante o ataque: “É como você, de repente, cair no abismo e não ter onde se segurar.”

No dia 19 de maio do mesmo ano, o assistente de direção do programa ‘Domingão do Faustão’, da TV Globo, Thomaz Cividanes foi baleado no pé por traficantes, depois de entrar por engano no Morro do Dezoito, em Água Santa, na Zona Norte. Ele viajava no seu Volkswagen Tiguan e inseriu no GPS do carro o endereço para onde iria: a Rua Jornalista Tim Lopes. No entanto, seguindo indicações erradas do aparelho, acabou entrando na comunidade.

No dia 4 de outubro de 2015, Regina Múrmura, 69, morreu baleada por três tiros após entrar por engano na favela do Caramujo, em Niterói, na Região Metropolitana. A vítima estava indo com o marido, José Francisco Antônio Múrmura, 70, a um restaurante em São Francisco, seguindo informações do aplivativo de trânsito Waze, mas caiu em uma emboscada de dez traficantes, que atiraram 20 vezes contra o carro.

No dia 8 de agosto do ano passado, o carro da atriz Fabiana Karla foi atingido por tiros também em Niterói, na mesma comunidade, mas ninguém se feriu. Ela seguia para um evento, com a orientação de GPS, e entrou na comunidade por engano.

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