Por gabriela.mattos
Daniela Lopes%2C de 20 anos%2C e Isabela Otoni%2C de 23%2C ressaltam que demonstrar carinho não fere ninguémGabriel Sobreira / Agência O DIA

Rio - O espírito olímpico tem deixado a área da Zona Portuária ainda mais colorida. Não se trata dos anéis olímpicos, bandeiras de diversos países, grafites, artistas que se apresentam no Boulevard Olímpico. Basta uma simples caminhada por lá para ver casais homossexuais demonstrando publicamente afeto por seus respectivos parceiros sem medo de serem hostilizados. “Não senti clima nenhum de preconceito. De vez em quando a gente dá um beijinho”, frisa o advogado Thassio Ferreira, de 33 anos, dando um selinho no namorado, o estudante Guerino Binotti, de 20.

O casal, que está junto há um ano, acredita que o clima olímpico que está na cidade faz com que as pessoas fiquem menos hostis às demonstrações de afeto entre homossexuais. Binotti destaca: “Outro dia, aqui mesmo, no Boulevard, vi casais gays se beijando e não vi reprovação por parte de ninguém.”

O casal Pedro Paulo Bicalho, 42 anos, e Alfredo Assunção, 35, concorda. Casados há cinco anos, eles dizem que durante o show da cantora Elza Soares, durante a programação dos Jogos na Zona Portuária, era comum ver as pessoas demonstrando livremente o afeto, independente da orientação sexual. Contudo, Bicalho ressalva: “Espero que não seja um comportamento que termine no dia 21. Que a mudança do Rio de Janeiro não seja apenas arquitetônica, mas uma mudança da cultura, que as pessoas também possam mudar o seu modo de enxergar as outras. Esse que deve ser o grande legado da Olimpíada.”

Essa é uma das preocupações dos noivos Felipe Lima, 30 anos, e Thiago Silva, 26. “Parece que sempre que temos grandes eventos, as pessoas ficam mais complacentes, respeitosas, tudo fica mais aceitável. Depois, a coisa muda de figura e isso é muito triste”, salienta Lima. Para o americano Steve Guffhorn, casado há 12 anos com o brasileiro Marcio Godoy, o brasileiro é um povo tão alegre que não combina com preconceito. “Vi tanta gente se beijando, brincando, se divertindo. Tomara que o espírito olímpico e o amor ao próximo prevaleçam”, torce.

Daniela Lopes, de 20 anos, e Isabela Otoni, 23 anos, por enquanto, estão na fase da ficada. As meninas não escondem a ressalva quanto ao clima amigável instaurado no Boulevard. “O Brasil é um país racista e bem preconceituoso em relação à homossexualidade”, pontua Isabela. Daniela concorda, mas conta que não tiveram problema em demonstrar carinho pelo Boulevard Olímpico. A parceira completa: “Acho que as pessoas têm mais é que se abraçar, beijar e demonstrar o amor em público. Amor é tudo e demonstração de carinho e afeto não vai ferir ninguém, nem agora e nem nunca”, observa.

Para Carlos Tufvesson, da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS), do Rio, dá orgulho ver a cidade mostrando respeito à diversidade e deixando esse legado de tolerância. E, para que esta mensagem se dissipe, em parceria com a Secretaria de Cultura, o CEDS lançará, ainda sem previsão, um Centro de Referência LGBT, com sede no Centro Cultural do Castelinho, no Flamengo. “É um espaço cultural, com peças e exposições voltadas para este segmento, e com atendimento ao cidadão e a cidadã. Queremos deixar claro que uma cidade tão maravilhosa como o Rio de Janeiro não combina em nada com o preconceito!”, afirma.

Jornal tenta ‘tirar atletas do armário’

Na contramão do clima de respeito à diversidade, lema da Olimpíada, o jornalista britânico Nico Hines, editor do ‘The Daily Beast’, publicou um artigo “tirando atletas do armário”, que estão nos Jogos Rio 2016. Heterossexual, ele criou perfis em aplicativos de encontros gays — como Grindr, Hornet e Tinder — e usou a sua localização na Vila dos Atletas para atrair competidores. Hines marcava encontros e não aparecia. O artigo do jornalista (“Consegui três encontros no Grindr em uma hora”) citava, por exemplo, um atleta de um país da Ásia Central, em que a homossexualidade é considerada crime. Devido à grande repercussão negativa, o jornal retirou o texto do ar e, no lugar, colocou um pedido de desculpas.

A Olimpíada Rio 2016 tem dado cada vez mais espaço para a diversidade. Na segunda-feira, a jogadora brasileira de rugby Izzy Cerullo na Olimpíada foi pedida em casamento pela gerente de serviços do time Marjorie Enya no estádio em Deodoro. E disse sim. A medalhista de ouro no Judô, a brasileira Rafaela Silva, assumiu publicamente o namoro de três anos com a ex-judoca Thamara Cezar. Além disso, três transexuais participaram da cerimônia de abertura: Lea T, Fabíola Fontenelle e Maria Eduarda Menzes.

Você pode gostar