Quase sem apoio financeiro, 50 mil crianças treinam em mil projetos voluntários

Medalha da judoca Rafaela Silva é maior incentivo agora

Por O Dia

Rio - Ouro olímpico da judoca Rafaela Silva, oriunda do Instituto Reação, voltado para carentes, enche de esperança atletas anônimos em formação nos mais de mil projetos esportivos. Carentes de tudo, nas 800 favelas do Rio, os jovens seguem duras rotinas de treinamento. A estimativa dos voluntários à frente de escolinhas é que mais de 50 mil meninos e meninas, de 4 a 18 anos, estejam praticando algum tipo de esporte nas comunidades, mesmo sem recursos oficiais.

“Só temos ‘paitrocínio’”, brinca Gabriel de Souza, o Sensei Gabu, 50 anos. Segundo ele, há 17 anos são as contribuições isoladas de pais de alunos que mantêm a escolinha de judô e jiu jitsu, entre Manguinhos e Jacaré.

"Em 2013, três alunos (Marcele, 18, João Vitor, 17, e Fábio, 34) foram campeões mundiais de jiu jitsu no Rio. Nem foi noticiado”, lamenta Sensei, que em 2013 foi “despejado” de um colégio estadual da região. Dos mais de 100 adolestentes, 60 se foram. Entre eles, o menino de 16 anos suspeito de ter matado a facadas o médico Jaime Gold, na Lagoa, em maio de 2015. “Se não tivesse se afastado, teria virado faixa preta em judô, como sonha”, acredita Sensei, que agora usa galpão alugado pela ONG Cicape.

Na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, o subtenente da PM, Orlando Muniz, há sete anos se dedica a uma escolinha de futebol com 150 crianças. Há outras 300 na fila para entrar. “Infelizmente, já fazemos milagres multiplicando pães com mortadela doados por um ou outro parente da rapaziada”, diz o descobridor de talentos, como Allan Azevedo, 13 anos, que está na escolinha do Fluminense.

Crianças correm na quadra reformada pelo Comitê Olímpico Italiano e a ONG ActionAid no Colégio Alphonsus de Guimarães%2C na Cidade de DeusDivulgação

"Quero ser famoso e ter vida boa”, planeja o jogador, para o orgulho da mãe, Aline, 32 anos, e do avô, Jorge, de 69. A UPP desenvolve outros quatro projetos na comunidade, com 400 crianças.

No Conjunto Amarelinho de Irajá, Vanessa Silva, 21, lidera o Centro Social Futuro Feliz, criado pelo pai, Alex (morto em 2013) há 16 anos, num imóvel precário da associação de moradores. Cem crianças têm aulas de jiu jitsu, judô, kickbox e karatê, com voluntários, como mestre Carlos Fidélis. “Paramos com boxe. Não temos como pagar passagem de ônibus do professor, que mora na Zona Sul”, revela.

No Complexo da Maré, outro projeto sem apoio é o Marezinha Bushido Jiu Jitsu, do mestre Bruno Pernambuco, 34 anos, há 17 anos na Vila do Pinheiro, uma das áreas mais violentas do Rio. “Seguimos em paz, produzindo campeões, como Rubens de Carvalho, campeão brasileiro de jiu jitsu aos 15 anos.

Na Rocinha e no Alemão, dezenas de projetos isolados, como o Futebol Social, tiram centenas de jovens em situação de risco da ociosidade.

O preparador físico de alto rendimento, João Paulo Costa da Silva, 33 anos, se surpreende. “Dificilmente os jovens de favelas têm acesso aos quatro pilares do esporte (técnica, saúde, psicologia e treinamento). São heróis. Espero que depois do ouro da Rafaela, olhem mais para eles”, justifica.

A psicóloga Márcia Modesto diz que a rotina de violência nas comunidades faz com que os jovens suportem pressões no esporte. “Mas o acompanhamento psicológico é fundamental para impedir pânico e depressão”, adverte.

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