Fileira de cadeiras vira leito em hospital

Unidades federais agonizam: pacientes não têm maca em Bonsucesso e, no Fundão, que tem estrutura, falta médico

Por O Dia

Paciente fica em cadeira e acompanhante no chão em BonsucessoReprodução

Rio - O Hospital Federal de Bonsucesso e o Hospital Clementino Fraga Filho, da UFRJ, na Ilha do Fundão, vivem realidades bem diferentes, porém, com apenas um prejudicado: o paciente que precisa de socorro. O primeiro está lotado e não há leitos nem para casos gravíssimos. Médicos e enfermeiros fazem de tudo para atender, até medicar com o doente deitado em cadeiras perfiladas como se fossem cama. No Fundão, leitos de enfermarias e de CTI novinhos em folha estão vazios por falta de profissionais. Em uma unidade, a pessoa sofre com atendimento improvisado e na outra, sem socorro.

Em Bonsucesso, a professora Ana Cristina Nascimento, 34 anos, chorou ao relatar a situação de seu pai, de 72 anos, internado desde o dia 9. Ela foi à Justiça ontem para conseguir vaga no CTI. “Ele sofreu ACV no hospital, caiu da maca, bateu com a cabeça e não foi atendido. Nem exame fizeram. Meu pai não evacua e está largado”, desesperou-se.

A doméstica Ana Paula Barroso, 34, estava ontem na porta do Hospital de Bonsucesso acompanhando a tia, Creuza, de 60 anos, que tem câncer em estado avançado. “Ela ficou uma semana jogada em quatro cadeiras porque não há leitos disponíveis. Têm outras pessoas nos corredores.”

Presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze disse que um dos graves problemas da unidade é a obra na emergência. “A situação é crônica. A obra já dura cinco anos e a estrutura metálica que abriga o setor era um improviso e virou definitivo. A situação é grave e fere a dignidade humana”, constatou.

Referência no tratamento de doenças de alta complexidade, o Hospital da UFRJ reformou 62 leitos, mas cerca de 350 pacientes/mês deixam de ser atendidos por falta de médicos, enfermeiros e técnicos. O diretor Eduardo Côrtes disse ter solicitado ao Ministério da Educação (MEC), no fim de julho, a contratação, em regime de urgência, de 180 profissionais.

“Necessitamos de R$ 745 mil/mês para pagar salários, cuja média será de R$ 3,5 mil. Parece muito, mas não é. Estamos deixando de atender a pessoas que têm câncer, que precisam de transplante de fígado e de cirurgias cardíacas. Com essa demora os pacientes perdem”, explica.

Segundo ele, foram gastos cerca de R$ 500 mil na reforma e o hospital está pronto para receber pacientes. Mas o funcionamento dos leitos depende do ministério. “Estamos dialogando com o MEC para conseguir essas vagas, uma vez que não temos autonomia de contratação”, disse.

O MEC informou que a responsabilidade pela liberação de verbas para o Hospital da UFRJ é da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). Já a Ebserh diz que a administração da unidade não é de sua responsabilidade e que a demanda deve ser encaminhada ao MEC.

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