‘Nunca me escondi atrás de gabinete’, diz Osório em entrevista

Candidato à Prefeitura do Rio diz que a era das grandes obras na cidade acabou e, se for eleito, o foco da gestão será o serviço público eficiente, em favor do cidadão

Por O Dia

Rio - Secretário mais conhecido de toda a gestão de Eduardo Paes devido à visibilidade que ganhou pelo seu apreço a entrevistas na TV, o deputado estadual Carlos Roberto Osório trocou o PMDB pelo PSDB para concorrer à Prefeitura do Rio garantindo ser o mais preparado dos candidatos graças ao seu perfil executivo.

Carlos Roberto Osório afiram que o foco de sua gestão será o serviço público eficiente%2C em favor do cidadãoAlexandre Brum / Agência O Dia

Um dos responsáveis pela candidatura vitoriosa do Rio à sede dos Jogos Olímpicos, Osório também foi titular das pastas de Transportes tanto na prefeitura como no governo do Estado, e se orgulha de ter sido o responsável por evitar um colapso no trânsito da cidade após a derrubada da Perimetral.

Ex-genro (e amigo) de Jorge Paulo Lemann, único brasileiro com mais de R$ 100 bilhões na conta bancária, o candidato garante que não vai pedir ajuda ao empresário, nem mesmo ao presidente do seu partido, o senador Aécio Neves. Diz, também, que a era das grandes obras na cidade acabou e, se for eleito, o foco da gestão será o serviço público eficiente, em favor do cidadão.

ODIA: O seu nome sempre esteve muito ligado ao do prefeito Eduardo Paes pela sua visibilidade como secretário de Transportes. O que fará o eleitor acreditar que o senhor é um opositor em vez de mais do mesmo?

OSÓRIO: É preciso dizer que conheci Eduardo Paes quando ele assumiu a secretaria de Esportes no governo Cabral já na reta final da organização para o Pan, em 2006, e eu era, desde 2001, o executivo-chefe da candidatura do Rio para sediar as Olimpíadas. Quando o Rio foi escolhido, em 2009, o prefeito me convidou para ingressar na prefeitura por entender que eu poderia colaborar com a cidade. Desempenhei todas as missões que me foram atribuídas. Depois, fui eleito o deputado estadual mais votado do PMDB, partido ao qual me filiei para disputar a eleição.
Mas na segunda gestão do Eduardo Paes, ele estava preocupado com seu futuro pós-prefeitura, como governador, presidente ou o que seja. Assim, a segunda gestão não teve a mesma qualidade da primeira. Basta ver o secretariado que hoje acompanha o prefeito e o que o acompanhava.

Qual a diferença, na sua opinião?

A qualidade. Muitas indicações políticas e com pouca capacidade. Na primeira gestão, era uma equipe experiente e formuladores de políticas públicas. Hoje é centrada no prefeito com pessoas com pouca capacidade.

É uma indireta ao Rafael Picciani (secretário de Transportes)? Vai arrumar uma briga com pai dele (Jorge Picciani).

Não. É uma constatação objetiva. Basta comparar. Temos um secretariado apagado. O prefeito fica sobrecarregado e tendo que carregar a cidade nas costas, o que não funciona em lugar nenhum. Mas reconheço os méritos do prefeito. Ninguém trabalha mais que ele. Quando eu era secretário, tinha alguém que trabalhava igual. Agora não tem.

O prefeito não gostou muito de sua saída do PMDB e lhe deu algumas alfinetadas, dizendo que quem executava as grandes obras da prefeitura era o Pedro Paulo e o senhor era bom apenas para dar entrevista na TV.

O prefeito sabe que isso não é verdade. Ele diz que o Pedro Paulo é o seu primeiro ministro mas qualquer um que tenha trabalhado na administração municipal sabe que não tem primeiro, segundo ou terceiro ministro. Existe o prefeito. O Pedro é um assessor de confiança do prefeito. Apenas. O prefeito é centralizador e exerce a sua autoridade. Fez isso no primeiro e mais ainda no segundo mandato.

Mas o governador Pezão também fez esta piada.

Fez (risos). Ele faz essa brincadeira. Eu acho que um agente público tem a obrigação de estar disponível e comunicar à população coisas boas e ruins de maneira direta. Sempre comuniquei mais problemas que coisas boas. Nunca mandei nota oficial. Gosto de falar diretamente à população e acho que é uma das minhas qualidades. Nunca me escondi em gabinete.

Aliás, por falar em problemas, o senhor faz críticas ao projeto de racionalização dos ônibus na cidade. Mas não tem dedo seu nisso tudo?

Não. Deixei a prefeitura há dois anos e meio. As mudanças foram implantadas no final de 2014 e as grandes modificações, em 2015. E de maneira equivocada. Transporte não é ciência exata e é preciso diálogo com o passageiro porque você está mexendo com a rotina dele. No primeiro dia de governo, vou suspender este projeto e determinar a imediata revisão, ouvindo os usuários para fazer as mudanças necessárias.

O senhor concorda com a crítica de que estas mudanças afastaram da Zona Sul os moradores da Zona Norte e subúrbio?

Não sei foi feito com este objetivo, mas o resultado prático é este. Evidentemente que ninguém tem dúvida que é importante rever a grade de ônibus na cidade. Você pega a Nossa Senhora de Copacabana, por exemplo, tem um ônibus vazio atrás do outro enquanto em outras áreas há carência de transporte. A racionalização é interessante, mas tem que ser feita com cuidado para não acontecer isso. Além disso, esta mudança agrada o interesse dos empresários de ônibus, pois muitas vezes o passageiro tem que pagar uma passagem além das duas do bilhete único. E isso interessa aos empresários.

Uma das críticas que a oposição faz é ao fato de a cidade ser refém destas empresas de ônibus priorizando sempre este meio de transporte em detrimento de outros. O que o senhor fez para combater isso como secretário?

As empresas de ônibus, historicamente, sempre tiveram grande poder político e econômico no Rio por falta de regulamentação do setor. A prefeitura teve um mérito importante, que precisamos reconhecer, que foi a licitação feita no setor. Não foi feita por mim, mas pelo meu antecessor (Alexandre Sansão). Eu licitei o sistema de vans, que não foi levado à frente, infelizmente. Vou retomar este processo. Regulamentei os “cabritinhos”, que são as Kombis que sobem as nossas comunidades. Reformei o código disciplinar do táxi, que era de 1970. Mas reconheço que não consegui fazer tudo. Mas como prefeito isto será possível.

O senhor vai pedir apoio ao Aécio Neves ou acha que hoje ele tira mais voto do que traz?

O Aécio é uma liderança importante da política brasileira, está apoiando minha candidatura. Mas não estamos com a estratégia de nacionalizar a campanha. Estamos centrados nos interesses locais. Não é eleição para presidente da República.

E seu ex-sogro vai ajudar financeiramente? (Osório é ex-genro do bilionário Jorge Paulo Lemann, o brasileiro mais rico do planeta).

Não pedi e não vou pedir (risos). Tenho ótima relação com ele, mas ele nunca participou de vida partidária.

Se vier, será bem-vindo?

Toda ajuda é bem-vinda. Mas não vou pedir. Estou chorando na direção do PSDB porque o Rio é estratégico para o PSDB nacionalmente. Está difícil arrecadar dinheiro nesta campanha.

Por quê?

Estes escândalos políticos estão provocando uma precaução das pessoas em se envolverem com campanhas. Além disso, tem a crise. Ninguém sabe o dia de amanhã e todo mundo está na retranca. Só dois candidatos vão ter dinheiro: um é o candidato da igreja (Marcelo Crivella), que tem uma máquina de arrecadação que a Justiça Eleitoral tem que acompanhar com muito cuidado. Existe um conjunto de pessoas físicas que contribui regularmente com a Igreja Universal, e este conjunto agora está contribuindo com o candidato. E o outro é o Pedro Paulo.

De que forma? Pelas doações dos servidores?

Na lista de doadores dele existem pessoas físicas que são donas de concessões do município. Isto é ilegal. E tem um conjunto de pessoas com cargos em comissão na prefeitura e tem uma tabela de doação. Há uma pressão em cima para doar ao candidato oficial. O presidente do PreviRio, que está quebrado, segundo o próprio DIA noticiou, que é uma pessoa que não tem experiência no setor e é conhecido apenas da noite do Rio de Janeiro, e não pelos melhores predicados, também doou R$ 10 mil para a campanha dele. A Justiça deve acompanhar isso.

Na campanha de 2014, o PMDB, que era o seu partido, mentiu ao dizer que as finanças do Estado estavam uma maravilha. E o governador em exercício, Francisco Dornelles, decretou estado de calamidade pública e deve declarar falência nos próximos dias. Pode acontecer o mesmo no município?

É verdade. Temos duas experiências muito negativas, tanto no âmbito federal como no estadual. E não podemos ter no municipal. A cidade do Rio, diferentemente do estado, não vai falir amanhã. Mas a situação é preocupante. A prefeitura, por exemplo, tem 29 secretarias. Mais do que do Estado, mais do que a Presidência da República. Isto porque teve de fazer concessões para eleger o candidato oficial. Com a dificuldade da candidatura do Pedro Paulo, os aliados cobram mais cargos da prefeitura e isso incha a máquina pública e pressiona o caixa da prefeitura, que teve que cortar na Saúde, na Educação, nos serviços em geral. Precisamos de alternância de poder para deixar a prefeitura leve e focar nos serviços públicos. Acabou a era das obras e tem que começar a era das pessoas, dos bairros, do serviço público.

Este vai ser o foco da sua gestão, se o senhor for eleito em outubro?

Não vou paralisar os bons programas da prefeitura, mudar a cor da prefeitura, mudar nome de programa, nada disso. Vou continuar os programas e completar todas as obras. E depois redirecionar a prefeitura para as pessoas. Não vou construir nenhum túnel ou viaduto enquanto a Saúde não estiver funcionando em plena capacidade. Não vou construir uma Escola do Amanhã nova enquanto as atuais não estiverem em condições adequadas. Estão inaugurando as Escolas do Amanhã esquecendo as escolas do hoje. Fizeram a fábrica das escolas, mas esqueceram da fábrica de professores.


Últimas de Rio De Janeiro