O Rio, sua gente e o coração foram temas da abertura da Paralimpíada

Clodoaldo Silva acendeu a Pira

Por O Dia

Rio - Se a abertura da Olimpíada encantou o mundo inteiro por fazer um resumo moderno e multicultural da brasilidade, a cerimônia que inaugurou a Paralimpíada, ontem à noite, abusou da carioquice e da simpatia, sem abrir mão da tecnologia. Roda de samba, praia e até o Biscoito Globo marcaram presença na festa, mais enxuta que a do mês passado, mas não menos empolgante. E não deixará saudades em Michel Temer. Equivocadamente identificado na geração das imagens como ‘acting president’, ou ‘interino’, teve de enfrentar gritos de “Fora!” e sonoras vaias.

Cerimônia de abertura da Paralimpíada teve samba%2C alegria%2C o coração pulsante de Vik Muniz e vaias para Michel TemerAlexandre Brum / Agência O Dia

Às 18h15 em ponto, vídeo mostrava Sir Philip Craven, presidente do Comitê Paralímpico Internacional, viajando de Stoke Mandeville, berço do movimento, até o Rio. Depois de uma contagem regressiva em que bandeiras mostravam algarismos — algumas ficaram presas em estruturas na arquibancada —, a primeira surpresa: o cadeirante Aaron Weelz desceu uma rampa, alçou voo e fez um mortal, levando o Maracanã ao delírio. E o samba abriu os trabalhos. Roda com Monarco, Tia Surica, Xande de Pilares e Maria Rita cantarolou clássicos na base do ‘laiá-laiá’.

Tal como aconteceu na Olimpíada, projeções no gramado deram o tom da cerimônia. O Maracanã ‘encheu de água’, e o medalhista Daniel Dias o atravessou ‘a nado’. Era a deixa para o estádio virar colorida praia, com direito a ambulantes vendendo mate e Biscoito Globo. No fim do ato, o típico aplauso ao pôr do sol.

A medalhista Márcia Malsar%2C que tem paralisia cerebral%2C caiu e se levantou para concluir seu percurso com a TochaAlexandre Brum / Agência O Dia

Hino emociona de novo

Na execução do Hino Nacional, emoção com arranjo do pianista e maestro João Carlos Martins, que sofre de atrofia nas mãos. Bailarinos formaram a bandeira no campo.

E aí veio o desfile das delegações — a Argentina, desta vez, foi aplaudida, ao contrário das vaias na Olimpíada. Cada país trazia uma peça de quebra-cabeça que formou mosaico de Vik Muniz. O próprio encaixou a última, revelando um coração com centenas de rostos de atletas. Era revelada a síntese da festa, citada no discurso de Carlos Artrhur Nuzman. “Estamos juntos pela igualdade das pessoas, gente que, mesmo parecendo diferente, tem o mesmo coração. Todo mundo tem um coração”. Ao agradecer o empenho dos governos, teve de esperar alguns segundos por causa das vaias.

Em seguida, Sir Philip fez discurso protocolar e passou a palavra a Temer. Mais vaias, agora mais fortes. A fala foi menor que a da Olimpíada, quando houve espaço para curto elogio sobre o espetáculo. Desta vez, o presidente preferiu dizer somente a frase “declaro abertos os Jogos...”. E corta para o próximo ato.

Foi um show de tecnologia e inventividade a segunda parte da cerimônia. Figurantes com bengalas iluminadas abriram espaço para um duo de bailarinos cegos que se apresentaram sobre um piso tátil. Depois, pictogramas mostraram as modalidades paralímpicas, e o engenhoso recurso de ilusão de óptica parecia dar movimento a elas. Momento esperado, a performance de Amy Purdy contou com um braço mecânico.

O cerimonial dali em diante foi emoção pura. No revezamento final da Tocha, Antonio Delfino, do atletismo, entrou no estádio e passou para a veterana Márcia Malsar, também das pistas. No meio do trajeto, ela se desequilibrou, tombou e deixou a chama cair. De bom humor, levantou-se com ajuda da produção e deu lugar à velocista Adria Santos. Por fim, a medalhista entregou o fogo ao nadador Clodoaldo Silva. Escadaria intimidadora se transformou em rampa, vencida pela cadeira de rodas, e a Pira foi acesa. Seu Jorge encerrou a festa com muita ginga. 

Espectadores exaltam os jogos da inclusão

Enquanto posava para fotos em frente à escultura-símbolo da Paralimpíada no Maracanã, a poucas horas do início da cerimônia de abertura, e sem poder se comunicar por meio da fala devido à paralisia cerebral, a carioca Daniele de Paula, 33 anos, expressava no sorriso largo a emoção de assistir ao evento pela primeira vez de perto. Praticante há quatro anos de bocha, uma modalidade paralímpica, ela não disputará os Jogos, mas a família vai levá-la para prestigiar os atletas da categoria. “O esporte a faz se sentir importante e inclusa na sociedade. Ter algo que consiga executar é muito especial para ela”, disse a mãe, Elizabete Dias, 50.

Portador de hemiparesia esquerda, paralisia em um lado do corpo decorrente de três acidentes vasculares encefálicos, o professor e aeroviário carioca Vinícius Carvalho, 35 anos, foi assistir à festa com amigos de Belo Horizonte. Ele define a Paralimpíada como um marco para o Rio: “Está transformando a cidade e, junto com a Olimpíada, veio para introjetar no carioca o espírito revolucionário e de reconhecimento de que somos todos iguais”.

Amigo de Vinícius, Carlos Barreto, 34, viajou ao Rio só para assistir à cerimônia com a mulher e a filha Taís, de 5 anos. “A abertura da Olimpíada foi fenomenal, e esperamos que essa também seja inesquecível”, estimou, antes de entrar no Maracanã.
“É uma grande família. Realmente ótimo!” Assim a alemã Christina Tichelman classificou o que o maior evento esportivo mundial dedicado às pessoas com deficiência significa para ela, que não tem os dois braços e uma perna. Questionada se teve dificuldades para se locomover no Rio, a turista exaltou a solidariedade do povo brasileiro. “Foi fácil, porque muitas pessoas ajudam!”

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