Armas apreendidas de uso da polícia chegam a 25%

Dado reforça indício de desvio de armamento das forças de segurança do Rio. Estudo revela, porém, que maior parte das apreensões tem menor poder de fogo

Por O Dia

Rio - Um quarto das armas apreendidas pelas polícias Militar e Civil no Rio de Janeiro é de calibre de uso exclusivo de autoridades, como policiais e agentes do Judiciário. A mais comum entre elas é a pistola .40. Porém, a grande maioria das armas apreendidas é de pequeno alcance, como revólveres (3.988) e pistolas (3.075) — respectivamente, 46,6% e 35,9% —, justamente as armas responsáveis pela maior parte dos crimes violentos no estado. Os resultados são mostrados no estudo realizado pelo Instituto Sou da Paz, que revelou ainda que o Rio apreende bem menos armas que há 13 anos — precisamente a metade. A taxa atual no estado é de 52 armas a cada 100 mil habitantes —a média no Sudeste é 58.

A principal conclusão, segundo Nathália Pollachi, coordenadora de projetos da ONG, é sobre a letalidade das armas apreendidas. “Sempre é dado grande enfoque a armas de maior poder de fogo, mas, embora importantes, elas representam pouco mais de 3% do total. São as armas pequenas que mais vitimam a população”, explica. Os fuzis (279) representaram 3,3% das apreensões. Em outros estados do Sudeste, esse índice foi de 1%.

Revólver calibre 38 é a arma de fogo mais usada em crimes violentosArquivo O Dia

De acordo com o o estudo ‘De Onde Vêm as Armas do Crime Apreendidas no Sudeste’, o Rio é o estado com maior participação de pistolas na região, mesmo sem incluir as armas institucionais de policiais que foram apreendidas. Segundo Nathália, a grande apreensão de armas .40, usadas pela polícia, é um indício que reforça o relatório final de CPI da Assembleia Legislativa do Rio, que apontou desvio de armas de unidades da PM.

“O ideal seria aprofundar o estudo, para rastrear o histórico dessas armas e entender de onde elas saem e como vão parar nas mãos dos bandidos. Mas essas informações são do banco de dados da Polícia Federal e não temos acesso”, destaca.

Em 2014 foram apreendidos 139.729 cartuchos no Estado do Rio. Mais da metade da munição recuperada é de calibre de uso restrito, sendo 23% de fuzil. “A análise desses dados nos permite avançar no conhecimento sobre o tráfico e desvio de munições e também sobre a utilização das armas de fogo nas atividades criminosas”, aponta o estudo.

Maioria é de fabricação nacional. Armas de brinquedo também são muitas

O estudo desmonta a tese de que o tráfico internacional é a maior fonte de armas ilegais que circulam no estado, “o que sempre reforçava o discurso de maior controle das fronteiras”, comenta Nathália. Ao contrário do que se pensava, essas armas não vêm de outros países, mas são de fabricação nacional (57%).

Outro dado importante é o aumento no número de armas de brinquedo (simulacros) apreendidas no Rio (15% do total, com 1.620 artefatos), o que, segundo ela, pode indicar a falta de armas industriais no mercado ilegal.

O estudo faz uma análise do perfil das armas de fogo apreendidas em 2014, tomando como base, no caso do Rio, os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), ligado ao governo estadual. Naquele ano, o Brasil teve 56.804 mortes por agressão, sendo 71% delas (40.369) a tiros.

No Sudeste vivem 42% da população e estão concentradas 48% das 118.379 armas apreendidas no país. Apenas 17% dessas apreensões ocorreram no Rio, contra 38% em Minas Gerais e 36% em São Paulo. O Espírito Santo participa com 9%. Três em quatro armas apreendidas (77%) na região são revólveres, pistolas ou garruchas, sendo quase metade revólveres (49%).

Não são consideradas no levantamento as apreensões de armas feitas durante confrontos entre policiais e bandidos. Mas o estudo lembra que o Rio foi o estado com o maior número de policiais mortos em 2014 (98, frente a 398 em todo Brasil) e também de mortes decorrentes de intervenção policial (584 contra 3.009 no país). Já o número de vítimas de balas perdidas não é contabilizado nas estatísticas oficiais.

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