UPP: De vitrine a vidraça

Menina dos olhos da gestão Sérgio Cabral, o programa começou a perder força a partir de 2014, quando a violência voltou a subir

Por O Dia

Rio - As Unidades de Polícia Pacificadora sempre foram a vitrine da Segurança Pública, especialmente na Zona Sul, onde nasceram e até então apresentaram os melhores resultados. Entretanto, a vitrine foi sendo estilhaçada, ao longo dos últimos anos, pela volta das cenas de guerra com traficantes que recuperaram o poder em diversas comunidades, antes pacificadas.

?Veja a cronologia completa da UPP

O pedido de demissão do secretário José Mariano Beltrame, ocorreu logo após a batalha que deixou três mortos e cinco feridos no Pavão-Pavãozinho e assustou a Zona Sul, na segunda-feira. O declínio do programa é apontado como um dos fatores de sua saída. “A situação do secretário ficou insustentável. Ele teve sucesso em determinado momento. Porém, colecionou mais fracassos”, avalia o jurista Luiz Flávio Gomes, presidente do Instituto Avante Brasil – IAB ( Instituto da Prevenção do Crime e da Violência).

Menina dos olhos da gestão Sérgio Cabral%2C o programa começou a perder força a partir de 2014%2C quando a violência voltou a subir Arte O Dia

Quando assumiu a Seseg a convite do governador Sérgio Cabral, Beltrame era um vigoroso delegado da área de inteligência da Polícia Federal, com 49 anos de idade e muitas ideias. Dez anos depois, é um sujeito com ar cansado, que projeta passar os próximos meses junto à família. Ontem, em entrevista ao RJ TV, da rede Globo, reuniu as últimas forças para defender o projeto que marcou sua carreira. “A UPP foi uma anestesia em um paciente que precisava de uma grande cirurgia. Essa cirurgia ou não foi feita, ou foi mal feita ou feita aos pedaços. Mas o desafio está ali. É possível, tem um rumo, há um norte para mitigar os problemas”, afirmou.

O problema é que anestesia, por si só, não tem poder de cura e nem salva ninguém. “O sucesso das UPPs acarretou em um dividendo eleitoral fabuloso e aí, como toda boa ideia foi apropriada politicamente, e sofreu suas manipulações”, salienta o diretor Regional da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança (Abseg), Vinicius Domingues Cavalcante. Ele destaca que a “ocupação social”, que deveria acompanhar a ocupação policial nunca aconteceu e que o estado saiu implantando UPPs a torto e a direito, sem tem nem sequer quantidade de policiais suficiente para tantas.

O colapso nas UPPs já era reconhecido pela cúpula da Seseg desde 2014, quando foi apresentado um programa de realinhamento de 23 das 37 unidades pacificadas. De lá para cá, só mais uma unidade foi implantada, sem que os problemas identificados nas outras fosse resolvido.

A queda na taxa de homicídios, porém, é um feito elogiado: de 44 mortes por 100 mil habitantes, em 2007, para 25 por 100 mil, em 2015. Esse talvez tenha sido o maior mérito de Beltrame, “Isso tem que ser reconhecido”, apela o ainda secretário, que, pelo jeito, não quer ser esquecido.

Tráfico se expandiu em outras regiões do estado

A tática de implantação das UPPs comprometeu o projeto, segundo especialistas. O fato de o Governo anunciar com antecedência a data das ocupações possibilitou que quadrilhas batessem em retirada, levando armas, drogas e dinheiro. A maioria das conquistas de territórios do narcotráfico aconteceu sem resistência, a ponto de o coronel Fernando Príncipe, do Batalhão da Tijuca, dizer que “um escoteiro seria suficiente para a ocupação” do Morro da Formiga. A força do narcotráfico foi subestimada.

A UPP em vez de erradicar, expandiu o domínio do crime organizado para locais onde o tráfico era pequeno ou não existia, como nas cidades da Baixada, São Gonçalo, Niterói e Itaboraí, entre outras. Nesse período de exílio forçado, os bandidos se tonificaram e retornaram à capital para retomar os territórios perdidos. “Venderam uma pacificação sem conflitos, sem mortes, sem danos colaterais, como se aqueles que passaram a vida toda no crime fossem se contentar em perder a boquinha, por as armas no chão e aderir a uma vida honesta, mas cheia de limitações e sacrifícios. Era o próprio “omelete sem quebrar ovos”, resume Vinicius Cavalcante, da Abseg.

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