Enforcamento de jovem acende alerta entre mães para uso em excesso de jogos

Adolescente se enforcou no último sábado, após suposto desafio de colegas em um game na Internet

Por O Dia

Rio - "Perdi cerca de cinco anos da minha vida. Não no sentido acadêmico. Mas no sentido de esquecer quem eu era, onde estava, qual era meu contexto real. De fato estava vivendo alter-egos.” O depoimento do estudante Victor Nogueira Gelabert, de 22 anos, reflete um cenário extremo dos jogos online, semelhante ao episódio de Gustavo Riveiros Detter, de 13 anos. O adolescente de São Vicente, litoral de São Paulo, se enforcou na noite de sábado, após suposto desafio dos colegas em um game na internet. Os três companheiros de jogo assistiam à cena pelas webcams. Ele morreu menos de 24 horas depois.

Gustavo jogava League of Legends. Quando um dos participantes perdia uma partida, deveria passar pelo desafio do “choking game”, ou jogo da asfixia, em inglês. O adolescente usou uma corda que sustentava um saco de boxe no quarto do pai. De acordo com um tio materno que acessou o histório de mensagens do menino não era a primeira vez que Gustavo participava do desafio.

Gustavo Riveiros Detter tinha 13 anos%3A tio recuperou histórico de mensagens e viu que anônimos 'atacaram' o meninoReprodução

Victor conta que, ao ler a notícia, não se surpreendeu. Ele já tinha recebido desafios semelhantes, de pessoas protegidas pelo anonimato. “Não existe empatia nenhuma. Comentários como ‘se mata, tu é um lixo humano, seu aborto ambulante’ são bem comuns”, descreve.

O estudante parou de jogar há quatro anos, quando passou a estudar mais e se “viciou em conhecimento”. Foi uma estratégia similar à do universitário Gustavo Strauss, de 24 anos. Ele joga desde os 14 anos e chegou a ficar 29 horas seguidas em frente à tela do computador. “Tem um momento em que você tem que acordar e perceber que é um vício e definir metas e horários”, diz.

Hoje, Strauss joga apenas nos fins de semana, uma ou duas horas por dia. Mas admite que é difícil parar com uma partida só. “É viciante. Me atrapalhou muito na época da escola”, relembra.

Para Victor, o jogo não é o vilão, “mas sua comunidade, a segregação e o desrespeito existente nela, podem aumentar quadros que poderiam levar ao suicídio”, diz.

O psiquiatra Jorge Jaber explica que a compulsão do vício em jogos muitas vezes tem fatores relacionados ao suícidio. “São transtornos obsessivos compulsivos”, esclarece. Segundo Jaber, outros fatores que levam ao suicídio são alterações químicas no cérebro, histórico familiar e depressão.

Pais devem estar atentos a alterações no sono, transtornos de apetite, falta de interesse em outras atividades, irritabilidade, perda de memória e tristeza. O melhor aliado dos responsáveis deve ser a intuição. “Desconfiou? Procure um pediatra. Pode não ser bobagem”, afirma. O CVV (Centro de Proteção a Vida) oferece apoio emocional e prevenção pelo telefone 141.

Mães limitam horários do jogo de filhos

Motivada por episódios como o do jovem Gustavo, a recepcionista Daiana Miranda de Freitas, de 35 anos, limita de forma rígida os horários do filho Ariel, 11, em frente ao computador ou videogame. A mãe usa a tecnologia como aliada: ela limita a faixa etária dos games a 12 anos, troca senhas e verifica históricos na internet. “O mundo está tão sujo e a gente vê tanta coisa... Tenho que proteger meu filho”, afirma.

A jornalista Patrícia Terra, 43, também fica de olho nos games do filho João Victor, 12. Ela tenta controlar o tempo que o filho joga, mas acredita que pode haver aspectos positivos no game. “Ele é um bom jogador de futebol, e jogar Fifa pode ajudar a desenvolver a estratégia”, comenta.

Objetivo é mostrar poder

De acordo com especialistas, a competitividade tão comum à época da adolescência pode ter sido um fator importante para a participação de Gustavo no jogo da asfixia. Para a psicoterapeuta Andreia Calçada, especialista em crianças e adolescentes, é possível que o enforcamento tenha sido motivado pelo desejo de aceitação no grupo.

“Adolescentes acham que são imortais. Muitos sentem prazer na adrenalina de se enforcar. Algum prazer veio disso: de mostrar para os amigos que é poderoso”, explica.

A psicóloga Mariana Guedes ressalta que é importante alertar pais, educadores e profissionais de saúde para essa prática. Segundo ela, é nessa fase, em que os adolescentes se afastam mais dos pais e se aproximam mais dos amigos, que os responsáveis devem estar mais atentos e abertos ao diálogo. “A criança está começando a aprender a lidar com o limite. Não tem como negar, mas deve se limitar o uso de jogos, sim. A maneira como lidar é que vai fazer diferença”, afirma.

Reportagem da estagiária Alessandra Monnerat

Últimas de Rio De Janeiro