Rota do tráfico longe do asfalto

Facção criminosa aprimora acampamentos e trilhas na mata para vender drogas mais caras na Barra

Por O Dia

Rio - Eram 5h da última terça-feira quando o major Fábio, chefe do serviço reservado do batalhão da Barra da Tijuca, entrou na mata fechada, com outros três policiais, utilizando trilhas abertas por capivaras. Eles procuravam os traficantes que horas antes haviam atacado a base policial do Morro do Banco, no Itanhangá, e que, na fuga, mataram a dentista Priscila Nicolau, de 37 anos, ao atingir o carro dela com 17 disparos.

Após quatro horas de caminhada, conseguiram localizar dois homens. “Tinham passado a noite dentro da mata. Eram do Morro da Formiga e estavam na mata observando os policiais em troca de R$ 200 por dia”, disse o oficial.

Facção criminosa aprimora acampamentos e trilhas na mata para vender drogas mais caras na BarraArte O Dia

Para chegar até o Morro do Banco, cerca de 20 traficantes caminharam 1,5 Km em mata fechada, a partir da comunidade Mata Machado, localizada no Alto da Boa Vista. Até sexta-feira, cinco deles foram identificados e são atuantes no tráfico do Complexo do Lins e no Morro do Borel, na Zona Norte do Rio.

A movimentação deles pela mata não surpreendeu os agentes. Isso porque investigação da Delegacia de Combate a Drogas, feita há dois anos, já apontava que os traficantes dessa facção utilizam táticas de guerrilha como sobrevivência na selva, e aumentaram sua atuação nas matas do Parque Nacional da Tijuca, que possui 4,2 km², inúmeras cachoeiras e é cercado por favelas.

Traficantes usam roupa camuflada conhecida como 'traje Ghillie'Divulgação

“A instalação das UPPs fez com que os traficantes do Comando Vermelho escondessem as armas e drogas nas matas. Eles começaram a recrutar ex-militares e compraram até roupas especiais, trajes de camuflagem conhecidos como Gillie. Usam até geradores para fazer café e comida, alguns moram nessas matas”, afirmou um agente que participou da investigação.

Além de assaltos a pessoas que fazem trilhas no Parque da Tijuca há constantes tiroteios em áreas de matas entre facções rivais. É o caso da divisa entre o Complexo do Lins e da Comunidade Água Santa , dominada pela quadrilha Amigo dos Amigos (ADA).

O serviço de inteligência da Polícia Civil investiga se a ação no Morro do Banco teria sido uma articulação de Isaías do Borel, traficante do alto conselho do Comando Vermelho, transferido de Bangu para um presídio federal desde que comemorou o resgate do traficante Fat Family do Hospital Municipal Souza Aguiar.

Ainda em Bangu, Isaías teria autorizado Marcelo Batista, o LC do Borel, e Leonardo Pampuli, o Leo Barrão, a retomar o morro. O motivo: o local seria um entreposto de venda de drogas para a Barra da Tijuca. Lá, eles poderiam vender a partir da Zona Norte, usando as trilhas, uma cocaína chamada ‘Canelinha’, mais pura, cujo quilo chega a custar R$ 13 mil. Os dois ganharam a liberdade esse ano.

“Há um mercado consumidor de drogas, de alto poder aquisitivo na Barra”, afirmou o subcomantente do batalhão da área, tenente-coronel Vanildo Sena.

O oficial foi o primeiro a chegar no local em que a dentista estava na Estrada das Furnas. “Lembro do rádio ligado, ela escutava música quando foi morta. Me choca a crueldade desses traficantes, fazerem algo assim com um inocente”, desabafou.

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