Parada LGBT leva multidão à orla do Rio e cobra lei que garante mudança de sexo

Evento contou com oito trios elétricos e animou o público neste domingo

Por O Dia

Rio - Com o tema ‘Eu sou minha identidade de gênero’, a 21ª Parada do Orgulho LGBT pediu passagem, sob forte calor, ontem na orla de Copacabana. Com apoio da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS), da prefeitura, o evento levou para as ruas aproximadamente 600 mil pessoas, segundo dados da organização, para lutar contra o preconceito, o ódio e a intolerância. A PM não divulgou a sua estimativa de público.

“A Parada é uma manifestação necessária. É importante lembrar que há nove anos os índices de crimes de ódio contra LGBTs aumentam. Estamos nos tornando intolerantes. Precisamos nos unir contra a intolerância. Que a paz brilhe e viva o amor!” , discursou Carlos Tufvesson, coordenador da CEDS.

Parada Gay agita a orla de CopacabanaFoto%3A Maíra Coelho / Agência O Dia

A concentração começou às 9h, mas ‘ferveu’ por volta das 14h, quando Ludmilla abriu oficialmente o evento e cantou seus maiores sucessos. A cantora fez o público dançar e provocou: “Hoje eu não tenho hora para ir embora, vocês têm? Vão ficar comigo?”. Ludmilla ressaltou a importância do movimento.

“Representa respeito, aceitação. As pessoas poderem ser quem são”, diz. Perguntada se já teve um relacionamento com uma mulher, a funkeira foi direta. “Nunca aconteceu. Mas acho a coisa mais normal do mundo. Se tivesse vontade teria”. Além dela, se apresentaram no evento, que contou com oito trios elétricos, as cantoras Lexa e Iza e a DJ Giordanna Forte. Foram distribuídos 400 mil folhetos com dicas de saúde e preservativos.

Paolla Duarte, de 19 anos, e Natasha Neves, 20, namoram há três meses e fizeram questão de comparecer, mesmo com Paolla numa cadeira de rodas, depois de quebrar um pé. “É importante para celebrar conquistas e estar perto das pessoas que lutam pela mesma coisa que nós”, diz Paolla. A namorada completa: “Nossas famílias nos aceitam, mas foi um processo. Cada conquista é importante. Já sofremos preconceito na escola, por exemplo”.

O tema deste ano é a aprovação da Lei João Nery PL 5002/13 – Lei de Identidade de Gênero, que garante direito ao nome social e ao processo transexualizador de qualquer pessoa maior de 18 anos. Jean Wyllys, um dos autores da PL junto com a deputada Érika Kokay, afirma que já estava mais do que na hora do movimento destacá-lo. “Essa lei é peça fundamental na cidadania dessas pessoas. Ao contrário do que inventam e espalham na internet, ela não quer obrigar as pessoas a mudarem de sexo, mas antes, garantir as pessoas transgêneros — e somente a elas — o direito a uma existência legal e ao reconhecimento público de sua existência”, disse.

Para o grupo Arco-íris de Cidadania LGBT, que organiza o evento há 21 anos, é importante que a sociedade compreenda a luta. “É um tema fundamental pela vida das travestis, das mulheres e homens trans, que perdem o seu direito de estar vivos e de exercer sua cidadania. Até o dia de hoje (ontem) no país temos 105 pessoas trans mortas. O evento deste ano vem gritar para a sociedade: ‘Chega’! As pessoas têm o direito de ser reconhecidas na sua identidade de gênero”, afirma Marcelle Esteves , vice-presidente do Arco-Íris.

Projeto de lei homenageia primeiro trans

João W. Nery é considerado o primeiro homem trans brasileiro operado. Nasceu na década de 50 e enfrentou as questões da transexualidade quando não se falava sobre o assunto e nem existia uma palavra para defini-lo. Formado em Psicologia e especializado em Sexologia, submeteu-se a cirurgias nos anos 70, quando médicos podiam ser penalizados por realizá-las. É apontado como um dos ativistas mais importantes da causa transgênero no país.

O nome do projeto de lei de identidade de gênero, ou ‘Lei João Nery’ (PL 5002/2013), está baseado na lei argentina, considerada a mais avançada do mundo sobre o tema, aprovada por ampla maioria na Câmara dos Deputados de lá. Por aqui, segundo o deputado Jean Wyllys, o projeto está parado na Câmara.

Festa contra a intolerância

Na festa da diversidade que foi a Parada do Orgulho LGBT, o cozinheiro Valdez da Silva, de 46 anos, e seu filho Marcos Felipe, 25, se divertiam. Valdez, homossexual, conta com o apoio do filho, heterossexual. “Nunca tive preconceito, sempre respeitei meu pai. Essa é uma luta pela liberdade de todos”, garante o rapaz.

A trans Barbara Aires, 25, conta que desde a infância se via como menina. Para ela, a operação é uma forma de bem-estar. “Estou no processo para fazer. É uma questão pessoal, não vou à praia, não me reconheço no espelho. Vai melhorar minha vida”, afirma a consultora de sexualidade. Atualmente, ela contribui para o quadro do ‘Fantástico’ que estreará em março sobre o tema.

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