Sem merenda, limpeza e segurança, turmas da Faetec estão vazias

Crise causa exôdo nas unidades. Terceirizados não recebem salário há um ano

Por O Dia

Rio - ‘A turma simplesmente foi quase toda embora’, conta Ana Claudia Dantas, professora de Desenho Técnico da Faetec, pega de forma impiedosa pela crise do estado. “Se não tem comida, os alunos não querem nem saber. A maioria não tem condição de continuar na escola assim”, diz.

O relato de Ana se soma a queixas de terceirizados da Faetec, que não recebem pagamento há um ano, e de alunos, que apontam falta de limpeza e de segurança. “A escola está em uma situação muito ruim. Comemos atum quatro vezes na semana passada, por exemplo”, conta o estudante Ítalo. “Isso prejudica o rendimento dos alunos nos projetos”, emenda.

Alunos e professores das unidades da Faetec reclamam de falta de refeições até de material de laboratórioArquivo O Dia

A situação é de “caos total”, segundo o inspetor Allan Gonçalves de Araújo. “Nós, funcionários públicos, ainda estamos em uma situação um pouco melhor do que a dos terceirizados. Nossos salários estão atrasados durante o mês, mas eles já têm quase um ano de salários atrasados. Eles estão em um regime semiescravo”, afirma. “É uma angústia muito grande”, completa.

Na ETE Ferreira Viana, a situação é igualmente crítica. “Não tem inspetor para tomar conta dos alunos, e os banheiros estão muitos sujos, porque os funcionários estão sem receber há quase um ano. Então muitos deles não estão trabalhando e outros estão fazendo revezamento”, relata Ana Claudia.

Em nota, a Faetec informou que “repudia o corte brusco na entrega de gêneros alimentícios, sem comunicação prévia” e que todas as empresas que não estão cumprindo suas obrigações contratuais têm sido notificadas e multadas. Afirmou ainda que já iniciou procedimentos para rescisão de contratos e contratação de novos fornecedores em caráter emergencial, caso o fornecimento não seja regularizado imediatamente, e que a Fundação dispõe de R$ 2,8 milhões do Programa Nacional de Alimentação Escolar, depositados em conta, para arcar com a merenda até o fim do ano.

Já sobre o atraso no pagamento dos salários dos funcionários das empresas terceirizadas, a Faetec afirmou que “aguarda o aumento no fluxo de caixa do estado para quitar parcelas atrasadas” e que existe a previsão de um novo repasse após o pagamento da folha salarial dos servidores ativos e inativos. Segundo a Fundação, “eventuais atrasos nas faturas não podem ser usados como desculpa para o não pagamento dos salários”.

Escolas chegaram a ser ocupadas em protesto

No primeiro trimestre, estudantes ocuparam unidades da Faetec em protesto contra a precariedade do ensino, reivindicando alimentação digna, manutenção da estrutura escolar e climatização das salas de aula, entre outras melhorias. No mesmo período, professores entraram em greve.

Os alunos foram ouvidos na Alerj, em reuniões realizadas pela Defensoria Pública com representantes do MP, que resultaram em termo de compromisso: o movimento desocuparia as escolas e a Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia tomaria providências.

Os estudantes cumpriram a parte do acordo, desocupando as unidades no dia 6 de julho, mas o estado não cumpriu a dele, segundo os estudantes. “A Faetec se comprometeu a fazer obras, porque tem escolas literalmente caindo, e a melhorar a alimentação, que era péssima. A gente encontrava larva na comida”, afirma Rafael Soares, aluno da unidade Bacaxá, em Saquarema.

Falta material de laboratório

Professores e alunos afirmam que a qualidade do ensino na Faetec está prejudicado pela falta de material e de laboratórios. “A unidade onde eu estudo tem 17 laboratórios e nenhum aberto”, critica Rafael Soares, aluno da ETE Bacaxá.

A professora Ana Claudia Dantas reclama da falta de material de laboratório na unidade Ferreira Viana, no Maracanã. “A gente tem cursos de edificações, de eletrotécnica e os laboratórios não funcionam porque não há material.”

Últimas de Rio De Janeiro