'Que meu amor o faça sair desse caminho', diz mãe de menino detido na Dutra

Ela conta que o entregou ao Conselho Tutelar quando ele tinha 7 anos, após descobrir que a criança havia tirado R$ 100 de sua bolsa

Por O Dia

Rio - ‘Se ele fez isso, tem que pagar. Mas espero que o meu amor ainda faça ele sair desse caminho”. O desabafo é da mãe do garoto de 12 anos apreendido ao fazer um motorista refém com um revólver, na madrugada de ontem, na Rodovia Presidente Dutra, na altura de São João de Meriti. Apreensiva, após 12 horas de espera no Fórum de São João de Meriti, escutou no Juizado da Infância e Juventude daquele município que seu filho iria para a unidade do Degase (Departamento Geral de Ações Socioeducativas) da Ilha do Governador.

Essa foi a primeira infração criminal do menino, que já tem 10 passagens pelo Conselho Tutelar. A primeira ocorreu quando ele tinha apenas 7 anos. Foi levado pela própria mãe. “Ele roubou R$ 100 da minha bolsa. Mentia muito, faltava às aulas na escola. Respondia a todos. Tive que procurar ajuda”, disse a mulher, que pediu para ser identificada como Lúcia, de 36 anos.

Ontem no Fórum, outros cinco menores que tinham praticado roubos eram ouvidos. Todos acompanhados por familiares, que revezavam rezas com choros. Lúcia disse que seu filho nem a olhava. “Ele não fala mais comigo há algum tempo, porque tinha raiva quando eu procurava o Conselho. Dizia que era para deixar ele ser rebelde, que ele nasceu revoltado”, afirmou.

Mãe conta que o entregou ao Conselho Tutelar quando ele tinha 7 anos%2C após descobrir que a criança havia tirado R%24 100 de sua bolsaAlexandre Brum / Agência O Dia

A última vez que se encontraram foi em outra audiência, no Juizado da Infância e do Adolescente do Centro do Rio, no dia 30. “Foi uma audiência em que me aconselharam a fazer a internação dele em uma clínica para usuários de drogas. Mas quando cheguei no local, ele implorou para não entrar. Disse que iria mudar. Antes eu tivesse feito a internação”, lamentou-se.

Lúcia conta que o jovem é seu segundo filho de outros três e que ele não chegou a conhecer o pai, que foi assassinado. “O pai morreu antes de ele (o menor) nascer. Não sei o motivo. Me falaram que foi envolvimento com o tráfico de drogas, mas têm outras versões.”

Aos 23 anos, com dois filhos — um recém-nascido e outro de 5 anos — resolveu pedir ajuda à sua mãe, moradora do Morro da Lagartixa, na Zona Norte. “Sinto um pouco de culpa por ele ter sido criado longe de mim. Fui trabalhar e me casei de novo. Mas não fui ausente, tanto que procurei varias vezes ajuda, de várias pessoas para ele. Nunca deixei faltar nada para nenhum dos meus filhos”, contou.

Ainda pela manhã, quando foi levado para a delegacia, o franzino menino negro chamou a atenção de uma conselheira. Ela quis, então, levá-lo para ser entregue à família. “Perguntei a ele: menino, que idade você tem?”, disse a conselheira Roseana. “Ele respondeu: 12, completos. Se tivesse menos, não iria para a Justiça”, contou. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, considera-se criança a pessoa até 12 anos incompletos.

Comparsas fugiram do ataque ao caminhão. Carga era de R$ 200 mil

Policiais rodoviários federais apreenderam o adolescente de 12 anos, em uma abordagem na Rodovia Presidente Dutra (BR-116), em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, na madrugada de ontem. Ele estava armado e fazia o motorista de refém.

Os agentes faziam parte da Operação Rota Segura, que reforça o policiamento nas rodovias federais e foram alertados por motoristas sobre um roubo na altura de Nova Iguaçu. Com as características dos suspeitos, a equipe da PRF iniciou as buscas pela região. Na pista sentido Rio, os agentes abordaram o caminhão que estava sendo roubado.

Na delegacia, o menor confessou que teria rendido o motorista do caminhão com a ajuda de mais dois comparsas que estavam em outro carro e fugiram com a aproximação dos policiais. O adolescente contou que a carga com frascos de xampu, avaliada em cerca de R$ 200 mil, seria levada para a comunidade da Lagartixa, em Costa Barros, onde seria descarregada.

Traficantes do Morro da Lagartixa são apontados como dos mais atuantes criminosos no roubo de cargas, de acordo com a Polícia Civil. O crime apresentou aumento de 39,2%, de janeiro a setembro desse ano, em comparação com o mesmo período de 2015.

Segundo levantamento do Departamento de Segurança do Sindicargas, nos dias úteis de 2016, uma carreta é roubada a cada 20 minutos. Para evitar o confronto, quadrilhas ligadas às maiores facções criminosas fizeram loteamento de territórios para atacar. Um dos principais financiamentos do Disque-Denúncia é feito por empresas de transporte de cargas, que oferecem recompensas por informações que levem à prisão dos ladrões.

Internos matam jovem de 16 anos no Degase

Ainda na madrugada de ontem, agentes da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense apreenderam em flagrante cinco adolescentes como suspeitos de participação na morte de outro garoto. O crime aconteceu no interior de uma unidade de internação para menores, em Belford Roxo.

A vítima teria sido espancada pelos companheiros de cela no banheiro e não resistiu. Os policiais apuraram que os adolescentes decidiram “dar uma grande surra” na vítima, porque ele poderia ser ‘X9’ (informante), segundo depoimento.

Na delegacia, eles confessaram o crime e tiveram mais uma anotação criminal inserida: prática do fato análogo ao crime de homicídio qualificado.

Em nota, o Degase informou que “o caso foi registrado na delegacia local. A Polícia Civil e a Corregedoria foram imediatamente avisados e já estão investigando o ocorrido. O Novo Degase esclarece que está prestando o auxílio necessário aos familiares da vítima.”

Em agosto, outros dois adolescentes morreram em decorrência de um incêndio em um dos alojamentos da Escola João Luiz Alves, na Ilha. Um curto-circuito atingiu a cela onde noves jovens dormiam. Os outros seis que sobreviveram tiveram queimaduras e cumprem o restante de suas medidas socioeducativas.

As unidades do Degase são alvo de investigação do Ministério Público pela superlotação e péssimas condições. As denúncias foram levadas por diversas mães ao órgão, que relataram brigas entre os menores, além de doenças.

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