Com quase um ano, bebê com microcefalia se alimenta por sonda e usa óculos

Em janeiro, reportagem de O DIA mostrou a história do pequeno Luiz, cuja mãe teve Zika durante a gravidez e tomou conhecimento da enfermidade do seu bebê quando recebeu a criança pela primeira vez em seus braços

Por O Dia

Rio - São muitos obstáculos. A microcefalia, por si só, já desafia a sobrevivência dos bebês que adquiriram a síndrome. Somado a isso, a burocracia e a crise financeira que o estado enfrenta impõem um sofrimento maior às famílias que querem apenas ver suas crianças se desenvolvendo e tendo uma qualidade de vida melhor.

Luiz Phillipe%2C que agora usa óculos%2C curte a nova casa com a mãe e a irmã%2C YasminSeverino Silva

Mas os obstáculos existem para serem superados. Que o diga o pequeno Luiz Phillipe Rabello Cardoso, que, daqui a dez dias, completa seu primeiro aninho de vida. “É uma vitória”, festeja a mãe, Pollyana Rabello. Em janeiro, reportagem de O DIA mostrou a história do pequeno Luiz, cuja mãe teve Zika durante a gravidez e tomou conhecimento da enfermidade do seu bebê quando recebeu a criança pela primeira vez em seus braços.

Luiz Phillipe não escapou dos problemas físicos e neurológicos causados pela doença. E foram muitos. A cada mês, uma pneumonia. Em agosto, teve que se submeter a cirurgia, de quatro horas, para colocação de um botton, por onde recebe a alimentação. O aparelho foi comprado por R$ 1,5 mil, dinheiro arrecadado em uma campanha pela internet, já que o Estado não forneceu. Também teve problemas de visão: estrabismo e seis graus de miopia, que lhe obrigam a usar um charmoso óculos azul. E ainda não consegue sentar. Mas, mesmo diante de tantas barreiras, ele sorri. “E é nessas horas que a gente vê que vale a pena lutar”, se derrama Pollyana, que tem outros dois filhos.

Luiz nasceu com 44 centímetros e dois quilos. Hoje, tem 64 centímetros e 6,7 quilos. “O tamanho está bom. O que está ruim é o peso”, lamenta Pollyana, que já marcou a primeira consulta com a nutricionista. A vida da família mudou. Quando Luiz nasceu, morava em uma casinha, sem banheiro. Há três meses, todos mudaram para um apartamento de dois quartos, sala, cozinha e banheiro, no Conjunto Minha Casa Minha Vida, em Maricá. Só não conseguem mesmo é receber o benefício de um salário mínimo que, por lei, os bebês com microcefalia têm direito. “Dei entrada no pedido de pensão na agência do INSS de Maricá em novembro. Mas até agora, nada”, conta Pollyana, que vive com R$300 do Bolsa Família e de doações em dinheiro de pessoas que nem conhece. 

“A pediatra desapareceu”

Logo que o caso de Luiz Phillipe ganhou repercussão, a Associação Pestalozzi de Niterói se prontificou a tratar da criança. A terapia de estimulação precoce visava reduzir as prováveis sequelas causadas pela microcefalia. Entretanto, quando o bebê teve pneumonia foi obrigado a suspender o tratamento. “Ele não podia fazer nada, tinha que ficar em repouso absoluto”, explica a mãe, Pollyana Rabello. Em seguida, Luiz se submeteu a cirurgia de implante da sonda, que é por onde recebe alimentação atualmente. “Só se alimenta pelo botton. Encaixo a sonda e dou o leite pela seringa.

Não está mastigando, por enquanto. Para voltar à deglutição, depende da fono”, diz Pollyana. O problema é que, para retomar o tratamento na Pestalozzi, é necessária uma indicação médica. Mas a pediatra do Posto Municipal de Maricá que atendia Luiz, simplesmente, sumiu. “Dizem que a pediatra saiu do posto e que somente ela poderia assinar o pedido”. Pollyana tentou o médico do Posto de Atendimento Médico (PAM) de Maricá, que também já cuidou de Luiz Phillipe, mas não tem dado sorte. “Fui lá várias vezes e nunca é o plantão dele. Vou continuar tentando”.

Microcefalia continua avançando no país. São mais de dois mil casos

Em 10 meses, o número de casos confirmados de microcefalia quadruplicou no país. Saltou de 462 casos em fevereiro para 2,2 mil até 3 de dezembro, segundo informações do Ministério da Saúde (MS). As notificações no mesmo período aumentaram de 5.079 para 10.441. Desde o início das investigações, em outubro de 2015, 5.040 casos foram descartados por apresentarem exames normais, ou por apresentarem microcefalia ou malformações confirmadas por causas não infecciosas. Permanecem em investigação pelo Ministério e pelos estados 3.173 casos suspeitos. De acordo com as estatísticas federais, dos 2,2 mil casos, 437 tiveram confirmação por critério laboratorial específico para o vírus Zika. O Ministério da Saúde, no entanto, ressalta que esse dado não representa adequadamente a totalidade do número de casos relacionados ao vírus. A pasta considera que houve infecção pelo Zika na maior parte das mães que tiveram bebês com diagnóstico final de microcefalia. A pasta orienta as gestantes adotarem medidas que possam reduzir a presença do mosquito Aedes aegypti, com a eliminação de criadouros, e proteger-se da exposição de mosquitos, como manter portas e janelas fechadas ou teladas, usar calça e camisa de manga comprida e utilizar repelentes permitidos para gestantes. 

Mais de 500 crianças com a doença já morreram

A microcefalia é a causa mais provável de 536 óbitos após o parto ou durante a gestação (abortamento ou natimorto) no país. As mortes equivalem a 5% dos casos notificados, que foram 10.441 entre 27 de novembro de 2015 e 3 de dezembro de 2016. Os dados são do Ministério da Saúde, confirmando que 187 mortes foram mesmo causadas pela doença, sendo que cerca de 10% de óbitos (18) foram registrados no Rio de Janeiro. O estado ocupa a quarta posição no registro de microcefalias confirmadas, com 164 casos. Só é superado por Pernambuco (399), Bahia (356) e Paraíba (189). O Rio tem mais casos confirmados do que todo o Centro-Oeste (130) e Sul (270 do país somados.

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