Mais necessitados são os mais atingidos pela crise no estado

Conheça a história dos que foram vitimados pelo desmonte dos programas sociais

Por O Dia

Rio - Havia um resgate em andamento. Uma corda lançada ao fundo do poço içava, lentamente, os que se afogavam na miséria e no desamparo. Entretanto, durante a operação de salvamento, as cordas foram sendo carcomidas pela corrupção. Os braços fortes fraquejaram, e aqueles que tinham esperança de serem salvos despencaram novamente para a lama. E continuam lá, aguardando uma nova chance de resgate.

Todos os dias, faça chuva ou faça sol, Gilberto Rodrigues vai até o Restaurante Popular da Central do Brasil. Leva consigo a esperança de reencontrar a porta aberta.

Carlos Alberto também espera. Lembra do tempo em que encontrava uma cama, uma coberta, um travesseiro e um teto no Hotel Popular. E tem fé de que uma noite dessas vai poder voltar a deitar em um lugar mais confortável do que o chão frio e sujo.

Já Luciene espera mesmo. Grávida de quatro meses, essa funcionária pública que sonha ser mãe pela primeira vez convive com uma gestação de risco e depende de um remédio muito caro, que o governo do estado deixou de fornecer, para manter seu sonho vivo.

Dayana, por sua vez, espera construir seu futuro sob o poderoso alicerce da Educação. E torce para que a Faetec, que outrora foi uma instituição tão laureada, recupere seus tempos de glória.

As ações bancadas pelos cofres do estado, voltadas para o amparo das pessoas que mais necessitavam, ganharam um lugar na frente da fila dos projetos a serem cortados para salvar o Rio de Janeiro da penúria. Restaurante Popular, Aluguel Social e o programa Baixa Renda, pelas contas do governo, somados, consomem R$ 323 milhões, por ano, dos cofres públicos. Quantia volumosa, mas equivalente, por exemplo, a 12% do rombo causado na construção da Linha 4 do metrô, que atingiu R$ 2,5 bilhões, segundo auditoria do Tribunal de Contas do Estado TCE). A recuperação das finanças virou prioridade absoluta. O pacote de medidas para salvar o estado, objeto de muita discussão entre os deputados dentro da Assembleia Legislativa e de muita guerra entre a polícia e servidores, do lado de fora, no entendimento do governo, não tem o dom de estancar a crise, sem comprometer a cidadania e os direitos a uma vida digna do povo mais pobre. Os incentivos fiscais concedidos, que fizeram com que o estado deixasse de arrecadar R$ 138 bilhões em ICMS, entre 2008 e 2013, de acordo com o TCE, junto com a perda de receita com os royalties do petróleo, que somente em 2015 foi de R$ 900 milhões, estão entre as causas que explicam, em parte, a crise financeira. Porém, não há como deixar de vincular à crise o verdadeiro assalto praticado pelos próprios chefes do estado aos cofres públicos. Os lances mais escabrosos dessa rede de corrupção foram revelados com requinte de detalhes pela Operação Calicute, que levou para a cadeia o ex-governador do estado, Sérgio Cabral Filho, do PMDB, a ex-primeira dama Adriana Ancelmo e mais 11 pessoas.

Ao contrário do casal, as pessoas pobres não cogitam usar o dinheiro público para comprar um conjunto de joias de R$ 1 milhão ou uma lancha de R$ 5 milhões.  

No topo da pirâmide social, ainda sobra dinheiro

Enquanto estanca por um lado, sangra por outro. O Estado do Rio corta as verbas de programas sociais para reduzir o déficit fiscal, mas há previsão de gastos superiores a R$ 2 bilhões para concessão de benefícios e auxílios aos poderes Judiciário e Legislativo, além de Ministério Público e Tribunal de Contas. O governador Luiz Fernando Pezão também não demonstrou interesse em suspender as isenções fiscais, apontadas como uma das principais causas da crise financeira. Tanto que enviou projeto de lei orçamentária à Assembleia que previa isenção de R$ 33 bilhões para os próximos três anos. Foi necessária uma intervenção do Judiciário, que suspendeu a concessão de novas isenções em outubro, as quais depois seriam proibidas por dois anos em lei aprovada pela Alerj no início de dezembro. A não aplicação de recursos obrigatórios na Saúde também é alvo de ação do Ministério Público Federal. Os procuradores querem que o estado transfira R$1,3 bilhão para a Saúde, dinheiro recebido pelo governo e não repassado ao Fundo Estadual de Saúde.

Veja os relatos:

Gilberto Rodrigues PalacioDaniel Castelo Branco

“Eu tô passando fome. Tem dia que eu como um pão com água. Tem dia que não ganho nem para isso. Tenho 53 anos. Pareço mais velho, né? Eu sei... Muita coisa ruim acontece na nossa vida, e a gente vai ficando cansado. Não tenho família. Todos morreram. Uns se foram por causa da cachaça. Outros, assassinados. Nunca fui casado nem tive filhos. Estudei até a terceira série. Foi o suficiente para aprender a ler. Morava em Caxias, mas agora moro na rua. Durmo em qualquer marquise. Eu tenho Palácio, sim. Mas só no nome. Trabalho como camelô. Vendo escova de dente, pente, sabonete... Por dia, às vezes consigo R$ 20, às vezes R$ 30, mas não passa disso. Quando o Restaurante Popular funcionava, eu conseguia me alimentar direito. O café da manhã com pão e manteiga era R$ 0,50. O almoço sempre tinha arroz, feijão e uma carninha. Era só água e sal, sem tempero. Mas custava R$ 2. Mas mesmo que eu arrumasse dinheiro, você acha que iam me deixar entrar num restaurante? Iam me enxotar de lá. Ninguém quer saber da gente. Agora, eu tô passando fome. Todo dia venho aqui para ver se o Restaurante Popular reabriu. Falaram que ia voltar a funcionar, né? Então eu venho aqui conferir. Eu tô com fome. Mas não foi hoje. Quem sabe amanhã?”  Gilberto Rodrigues Palacio


Carlos Alberto Jesus MeloDaniel Castelo Branco

“Eu tenho muito conhecimento. Todo mundo aqui na Central me conhece. Eu não gosto de mentira. Recebo R$ 85 do Bolsa Família. Mas gasto tudo em remédio. Tenho um tumor (levanta a camisa e revela um calombo enorme no dorso direito). Eu tenho conhecimento com um médico lá do Inca (Instituto Nacional do Câncer). Ele disse que podia operar, mas tem que ter alguém da família para assinar um papel como responsável. Eu não tenho família. Antes, o Hotel Popular (localizado na Central do Brasil) aceitava o pessoal de rua. Agora tem que ser cadastrado. Tem que ter um endereço. Mas eu moro na rua. Durmo no chão. É sujo, mas a gente cobre com papelão e deita. Vendo latinha. Arrumo uns dois reais por dia. É que tenho trombose (mostra o pé esquerdo inchado) e ando de muleta. Fica mais difícil catar as latinhas. Não bebo, não cheiro. Só fumo um cigarrinho. Antes, tomava banho no valão da Cedae. Mas parou de cair água do cano. Mas vou lá na rodoviária e eles deixam eu me lavar. Eu tenho muito conhecimento.” ? Carlos alberto Jesus de Melo



Luciene Figueiredo Ribeiro Teles Daniel Castelo Branco

“Tenho trombofilia. No meu caso, a doença é hereditária. Não tem sintoma, mas se fizer longa viagem de avião posso desenvolver trombose nas pernas. Posso ter embolia pulmonar, cerebral. Meu sangue é mais denso, forma coágulo. Por causa da doença, corro mais risco de perder o bebê. É a minha terceira gravidez. Perdi duas meninas. Estou com quatro meses. É menina de novo. Faço tratamento. Todo santo dia tenho que tomar uma injeção de enoxaparina sódica. Na farmácia, embalagem com duas ampolas sai por R$ 190. Na internet, cada ampola custa R$ 70. Sou funcionária pública de Nível Médio. Não tenho condições de bancar as injeções. O governo do estado dava. Eu ia lá na Rua México buscar. Peguei até janeiro de 2016. Mas nunca mais me deram. Não tem mais e nunca chega. Me sinto desamparada. E tenho medo. Estou grávida. Tenho ganhado o remédio de pessoas que participam de um grupo na internet. Eles estão me dando as sobras. Tenho 25 mulheres na minha lista de agradecimento.”  Luciene Figueiredo Ribeiro Teles 


Dayana VieiraDaniel Castelo Branco

“Tenho 21 anos. Sou bolsista pelo Prouni porque cursei escola pública e sou de família de baixa renda. Faço Administração. Tô no primeiro período. Também faço estágio. Moro com meus pais. Mas fiz meu Ensino Médio pela Faetec, sou agente de viagem, me formei na Escola Juscelino Kubitschek, no Jardim América. Foi bom para mim. A Faetec me inspirou a buscar a faculdade de Administração. Era uma instituição de renome, orgulhava a gente. Agora me inscrevi no curso de maquiadora, mas não pude estudar, porque a unidade da Praça da Bandeira fechou. Chegamos lá para estudar e a luz tinha sido cortada. O governo não tinha pagado a conta. Atrapalhou os meus planos e os de muita gente. Era para entrar 2017 como maquiadora formada. Poderia começar a ganhar um dinheirinho, aliviar os meus pais... Mas o governo me tirou essa oportunidade. Esperança, eu tenho. Aliás, é a única coisa que a gente tem. Queria que tudo melhorasse, mas não tenho boas perspectivas.” Dayana Vieira


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