Por clarissa.sardenberg
Rio - No segundo dia da série "Passageiros da Agonia” — que traz relatos de vítimas de assaltos em coletivos — O DIA traz histórias da Central do Brasil, um dos terminais mais movimentados da cidade e, segundo levantamento feito pela reportagem junto aos registros de ocorrência, o mais visado para roubos no Centro. Conforme noticiado na primeira matéria, o ponto corresponde a 38% do delito na região. Além disso, é onde os assaltantes mais embarcam para anunciar os crimes enquanto o ônibus está em movimento.
Nos primeiros 11 meses de 2016, as duas delegacias que ficam na região somaram 920 registros policiais feitos em diferentes dias. O número é o terceiro maior do estado, ficando atrás apenas do ranking das delegacias de Duque de Caxias, com 1.864 casos, e de Bonsucesso, 1.587.
Bandidos embarcam nos coletivos na Central e logo anunciam rouboAlexandre Brum / Agência O Dia

Entre barracas de cachorros-quentes e quiosques de pastéis, trabalhadores esperam para o embarque no horário de rush. Entre eles, assaltantes espreitam com olhares as bolsas e entram nos coletivos, de preferência os chamados frescões. Nenhum policial é visto. Somente uma viatura fica parada no outro lado da Avenida Presidente Vargas. A ideia, com o pouco efetivo, é passar sensação de segurança, segundo um agente. No entanto, a presença dos policiais não surte o efeito desejado.

É o que relatam motoristas e passageiros. "O ônibus parou no sinal vermelho. Vi que um assaltante forçou a porta para subir e outroficou embaixo. Ele exigiu o meu celular, mas eu não quis dar, já que não estava armado. Fui ameaçada com um soco. Ele, então, assaltou outros passageiros", disse Ednalva Batista, 40, cabeleireira. A ação ocorreu na época da Olimpíada.

Ednalva foi vítima de outra tentativa de assalto há cerca de dois meses, também na Central. "Era um rapaz pequeno. Tentou pegar o meu aparelho pela janela. O garoto não conseguiu, porque eu puxei meu braço assim que percebi. Foram dois casos em um ano somente comigo", reclama.

A três quilômetros dali, a cuidadora de idosos Vera Lúcia Rodrigues, 64, diz presenciar arrastões quase que diários no ponto da Cidade Nova, na altura da prefeitura, onde passam ônibus para as zonas Norte e Oeste e para a Baixada. Na sexta-feira, ela viu dez rapazes saltarem do 474 (Jacaré-Jardim de Alah), no horário de saída da praia, e roubarem celulares de passageiros no local. “Quase nunca tem policiamento. Quando tem, os policiais estão longe e dizem que não podem fazer nada”, afirma Vera Lúcia, que não chegou a ser assaltada. “Deveriam fazer rondas esporádicas e tratar mais da educação”, opina o motorista Haroldo Gomes, 39, da linha 2251 (Engenho de Dentro - Castelo). O veículo dele foi assaltado há seis meses na Presidente VargaS, na altura da Central.

A PM ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Segurança à paisana

Um rodoviário revelou que muitas linhas que deveriam fazer ponto em frente ao Corpo de Bombeiros, na Praça da República, mudam a rota após as 20h e param em outra rua, em frente ao Hospital Souza Aguiar, no Centro, para escapar dos riscos. Segundo ele, é o caso de coletivos dos BRSs 5, 4, 2 e 1. “No hospital, tem policiamento 24 horas por dia. Ao redor, só tem até as 21h.” Três empresas do mesmo grupo — Transportes Barra, Auto Viação Redentor e Transportes Futuro — contratam seguranças à paisana para áreas perigosas durante o dia, como Central do Brasil, Cidade Nova, Praça da Bandeira e São Cristóvão. Motoristas dizem que a medida reduziu drasticamente o número de casos.