Homem denuncia agressão por homofobia no Terminal Alvorada do BRT

Ele seguia para o trabalho quando teria sido agredido por um segurança dentro do banheiro da estação. BRT nega fato

Por O Dia

Rio - A Polícia Civil está investigando uma agressão contra um estoquista, de 31 anos, no Terminal Alvorada do BRT, na Zona Oeste do Rio. Alan dos Santos Teixeira contou que foi espancado por um funcionário, por volta das 8h20 da última segunda-feira, após sair de um banheiro da estação. Ele reforçou ainda que foi vítima de homofobia.

Teixeira lembrou que um segurança entrou no banheiro e disse que ele e outro homem estavam praticando um ato sexual. No entanto, a vítima nega essa versão. Na tarde desta terça-feira, ele prestará um novo depoimento na 16ª DP (Barra da Tijuca), acompanhado do coordenador do Programa Estadual Rio Sem Homofobia, Cláudio Nascimento.

Após agressão%2C Alan precisou fazer uma pequena cirurgia na laringe WhatsApp O DIA (98762-8248)

Na ocasião, Teixeira voltava de uma viagem de Rio das Ostras, na Região dos Lagos, e seguia direto para o trabalho, em um shopping da Barra da Tijuca.

Ao desembarcar no Terminal Alvorada, ele foi ao banheiro. Teixeira contou que, ao sair do local, uma outra pessoa também havia acabado de deixar uma cabine. De acordo com a vítima, foi neste momento que um funcionário do BRT acusou os rapazes de terem praticado "gestos obscenos".

Teixeira destacou também que o segurança o agrediu com vários socos e fez xingamentos homofóbicos.

"Ele já chegou dizendo que eu estava transando com o outro cara. Do nada ele começou a me socar e me chamar de 'veado'. No momento da confusão, eu disse que não havia feito nada. Mas se ele achasse que eu tinha feito algo, era para chamar a Polícia Militar", lembra o estoquista.

A vítima acrescentou que, após a confusão, o funcionário da estação chamou os colegas e supervisores, mas teria contado que ele só se defendeu de agressões do rapaz.

Teixeira afirmou que a equipe decidiu chamar a polícia, mas ele preferiu não esperar por medo de novas agressões. A vítima contou que não conhecia o funcionário e nem o outro homem.

"Eu fiquei com medo de eles (outros seguranças) me agredirem mais. Estava com medo de morrer. Em nenhum momento funcionários do local quiseram saber a minha versão. Uma funcionária do lugar teria dito ainda que eu estava apanhando porque eu tinha transado dentro do banheiro", contou.

Sozinho, Teixeira seguiu até o Hospital Municipal Lourenço Jorge, a um quilômetro do local da agressão. Lá, ele ficou internado e precisou fazer uma pequena cirurgia na laringe. O jovem disse que sofreu várias escoriações e precisou tirar licença de dez dias no trabalgo. Ainda nesta segunda-feira, o rapaz registrou um boletim de ocorrência na delegacia da Barra.

"Após eu voltar do hospital, meus familiares se surpreenderam com o que havia acontecido comigo. Meu irmão me disse que essa agressão não deveria ficar impune e que eu deveria registrar o caso na polícia", disse o rapaz.

Ainda segundo ele, ao chegar na 16ª DP, ele teria sido mal atendido por inspetores da Civil. "Foi muito estranho. Acho que eles pensaram que eu tinha realmente feito sexo lá. Fiquei chateado com o atendimento da polícia", lamentou.

Depois de registrar a ocorrência, a vítima seguiu para o Instituto Médico Legal (IML), no Centro do Rio, para fazer um exame de corpo de delito. O resultado deverá sair em 30 dias.

Agressão aconteceu na última segunda-feira dentro de um banheiro do terminal do BRT Alvorada%2C na Barra Divulgação

O jovem ressaltou que processará o BRT por danos morais e materias, já que a empresa e funcionários do local teriam dito que ele estaria praticando sexo no local.

O outro lado

Por e-mail, o BRT desmentiu a informação de Teixeira. A empresa afirmou que um "controlador de estação chamou a atenção de um passageiro que praticava ato obsceno em companhia de outra pessoa no banheiro. O passageiro teria revidado com agressão e os dois entraram em luta corporal".

A concessionária informou que a PM foi chamada e os "agentes orientaram o passageiro a esperar a chegada da viatura. O rapaz se recusou e foi embora antes que a polícia chegasse". O BRT destacou que "o funcionário foi atendido pela viatura da PM e recebeu atendimento médico no Hospital Lourenço Jorge".

A empresa reforçou que o profissional teve ferimentos e hematomas no rosto e não retornou ao trabalho. Em nota, o BRT lamentou o ocorrido e repudiou a atitude do funcionário, que teria revidado "a agressão do passageiro". "Uma apuração interna foi aberta para avaliar o comportamento do funcionário, que, inclusive, pode ser afastado da empresa", completou a concessionária.

Rio Sem Homofobia no caso

O Programa Estadual Rio Sem Homofobia tomou conhecimento do caso e, nesta segunda-feira, uma semana após a agressão, se reuniu com Alan e seu advogado. De acordo com o coordenador do órgão, Cláudio Nascimento, não é a primeira vez que casos como este ocorrem no BRT.

Em outubro do ano passado, um jovem também teria sido agredido no local por sua condição sexual. Nascimento afirmou que um ofício foi encaminhado para a direção do BRT, pedindo que os seguranças das estações sejam mais preparados para atender o público e que a empresa disponha de uma equipe para mediar conflitos.

"Houve uma agressão, mas nada justifica. Se o rapaz tivesse cometido algum crime, o segurança deveria ter chamado a polícia para registrar o fato. O problema é que agressões contra gays acontecem em ambientes que poucas pessoas se colocam à disposição para defendê-los. Enquanto isso, muitas pessoas se colocam para julgá-los moralmente. As pessoas sempre vão usar a questão sexual para tentar desqualificar a denúncia de um homossexual. Esses são dispositivos usados por vários órgãos para descaraterizar as agressões que os LGBTs sofrem", explicou o coordenador.

Nascimento contou que, após saber do caso, o delegado da 16ª DP marcou um novo depoimento para colher mais informações sobre a agressão. "Após uma conversa com a gente [do Rio Sem Homofobia], vi que ele tinha mais informações para passar a polícia. Esses dados não estavam no registro de ocorrência", enfatizou.

O registro na delegacia

Segundo a Polícia Civil, Teixeira deu queixa na delegacia ainda na noite de segunda-feira, relatando que havia sido agredido por um segurança no terminal Alvorada. A polícia informou que um procedimento foi instaurado para apurar as circunstâncias do fato. "Imagens estão sendo analisadas, testemunhas estão sendo ouvidas e diligências serão realizadas para esclarecer os fatos", completou, em nota.

Reportagem do estagiário Rafael Nascimento 

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