Por gabriela.mattos

Rio - ‘O medo é constante. Não só de ser roubada, mas de ser agredida. Nessa época do ano é sempre assim: vários garotos cantando músicas falando nomes de traficantes, intimidando por prazer’. O relato é de uma passageira que utiliza o ônibus 474 (Jacaré-Jardim de Alah) e que pediu para não ser identificada. Ela usa a linha para voltar para casa, em Sampaio, na Zona Norte, ao sair da loja em que trabalha em Ipanema, na Zona Sul, por volta das 18h.

No mesmo horário na quarta-feira, 41 jovens foram detidos por depredar um veículo da linha, considerada uma das mais assaltadas e depredadas do estado. Segundo levantamento em boletins de ocorrência, realizado pelo DIA para esta sexta reportagem da série ‘Passageiros da Agonia’, em 2016 foram registradas em média quatro ocorrências a cada sete dias envolvendo a 474.

Jovens depredaram ônibus e desceram em pontos de Copacabana para fazer um arrastão entrando até em outro coletivo%2C na quarta-feiraReprodução

“Parece que não estão nem aí para a gente. Já cheguei na garagem e disse ao fiscal: vocês estão esperando eu levar uma facada? A situação é insustentável. Já levei até tapas dirigindo. Mas preciso do emprego. Se eu não quiser, tem outros 50 querendo”, contou um motorista, que pediu anonimato por questão de segurança.

Em 2015, investigadores da delegacia da Penha conseguiram identificar alguns grupos que atuam como ‘um braço do tráfico de droga’das favelas do Jacaré e do Complexo do Alemão. O processo está sob segredo de Justiça por envolver menores de idade. Mas, na denúncia oferecida pelo Ministério Público, 53 jovens foram identificados como revendedores de produtos roubados nas praias da Zona Sul a traficantes dessas regiões.

A maioria é formada por adolescentes entre 13 e 17 anos que têm autorização para roubar em troca de levar parte dos produtos, como roupas e joias, aos gerentes que não podem sair das favelas por serem procurados. Os que exercem esta função no tráfico são chamados de ‘Coreto’.

Entre os jovens detidos ontem em Copacabana, muitos disseram que somente estavam a caminho da praia durante as férias. Somente um jovem, identificado como Lucas dos Santos Vianna, de 18 anos, permanece detido. Ele estava com um celular roubado e foi reconhecido pela vítima.

Motoristas se sentem acuados nos coletivos. Um deles pediu demissão e passou a fazer o serviço de UberReprodução

Depois da depredação, parte do grupo correu para dentro de outro ônibus da 474. Em depoimento, o motorista desse outro veículo contou que “cerca de 100 jovens invadiram o ônibus forçando a porta traseira e promoveram um arrastão, roubando os passageiros e quebrando janelas”. Os registros foram realizados na 12ªDP (Copacabana).

O trajeto da linha foi diminuído pela prefeitura no verão de 2015. Na época, a medida foi vista por grupos como uma medida preconceituosa aos jovens da periferia que queriam ir à praia e protestos foram realizados. A PM afirmou, em nota, que reforçou o policiamento na orla.

Medo tira motoristas da profissão

Não é só na 474 que motoristas se sentem acuados. Wladimir Garcia de Matos, 41, trabalhou quatro anos conduzindo linhas que circulam entre a Zona Norte e o Centro do Rio. Após presenciar ações quase diárias de criminosos que utilizam os ônibus como transporte para assaltar passageiros nos pontos, pediu demissão e foi trabalhar com o aplicativo Uber. A gota d’água foi a agressão que sofreu em agosto. “Eles saltam, roubam e depois voltam pela janela ou forçando a porta traseira, no ponto”, relata.

Segundo Wladimir, a empresa de ônibus, cujo nome ele pede preservar, obrigava-o a ressarcir os prejuízos decorrentes do vandalismo. O motorista afirma que pagou R$ 400 por portas, janelas e retrovisor quebrados. Os pontos preferidos dos assaltantes eram a pista central da Avenida Presidente Vargas e o Largo da Cancela, diz ele.

Devido ao estresse, o ex-rodoviário conta que perdeu todo o cabelo no lado direito da cabeça e desenvolveu hipertensão. Hoje toma dois remédios por dia. “Fui agredido pouco antes de sair da empresa. Dois meliantes me atacaram com socos e chutes, porque pedi para não quebrarem a porta. Eles sempre invadiam o ônibus para roubar passageiros na Central”, lembra. A sorte é que colegas o defenderam e os bandidos não estavam armados.

Guarda Municipal planeja fazer revistas nos coletivos

O secretário municipal de Ordem Pública, coronel Paulo Cezar Amendola, afirmou ontem que a Guarda Municipal planeja fazer revistas em passageiros dos ônibus que seguem para as praias (como o 474) para evitar roubos, arrastões e retirar menores sem identificação ou acompanhantes dos ônibus.

Uma reunião com representantes do Ministério Público será marcada para saber se a medida poderá ser aplicada no próximo fim de semana, data em que terá início a atuação da Guarda Municipal em revistas de suspeitos nos locais desembarques e nos pontos finais das linhas.

“Essas revistas serão feitas estritamente dentro da lei para promover uma proteção maior aos banhistas. Isso está sendo levado ao Ministério Público, liderado pelo procurador Marcio Mothé”, disse o secretário, que participou da cerimônia de posse da comandante da Guarda Municipal, Tatiana Mendes.

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