'Não tenho a menor pressa', diz Mac Dowell sobre aumento da tarifa de ônibus

Vice-prefeito e secretário de Transportes disse que vai negar reajuste da passagem até empresas colocarem ar-condicionado em toda frota

Por O Dia

Rio - Engenheiro responsável pelas linhas 1 e 2 do metrô e de outros grandes projetos do Rio, o vice-prefeito Fernando Mac Dowell já chegou criando polêmica antes mesmo de ser empossado secretário de Transportes, em 1º de janeiro. Pediu ao antecessor para cancelar o reajuste das passagens de ônibus, que ele afirma que só concederá se, após auditoria realizada por ele mesmo, considerar necessário. Diz ainda que quer municipalizar o metrô para melhorar a operação, com a volta da transferência de trens no Estácio. Além disso, esse tricolor carioca, de 71 anos, quer restabelecer as linhas de ônibus municipais que foram extintas ou encurtadas na reestruturação iniciada em 2015.

ODIA: Além de pagamentos pelo investimento por 25 anos, o contrato do VLT prevê que a prefeitura pague parte da conta dos calotes de passageiros. Se a evasão passar de 10%, o município divide o prejuízo e o que passar de 20%, é da prefeitura. O que o senhor acha disso?

Mac Dowell: Eu sou contra qualquer subsídio da prefeitura. Quando você faz uma concessão, ela deve ser independente e deve se garantir por sua capacidade técnica e não ter nada que garanta uma demanda. Se você tem um comércio e compra umas televisões, comprou porque está vendo que vai conseguir vender. O que não é correto, se você não consegue vender, é chegar para o município e dizer que ele tem que te pagar. Eu acho que não tinha que dar nada. Eu vou ter que sentar com eles depois. Mas, no momento, a prioridade é cuidar dos ônibus.

O trecho entre a Central e a Praça 15 do VLT seria inaugurado no ano passado. O que está faltando?

Dinheiro. Não sei quem inventou para comprar esse bichinho (risos). Não vamos mexer com isso agora não. Ele é um sistema de transporte que tem um custo alto. O prefeito vai segurar ainda. Ainda não tem prazo.

E a ideia de levar o VLT até a Zona Sul?

Esquece. Não tem sentido.

O senhor já falou que pretende municipalizar o metrô. Como está isso?

O estado está passando por problemas complicados, mas nós poderemos puxar o metrô para a responsabilidade do município. Não vamos gastar nada, porque ele já é concedido. Por que eu quero fazer isso? Porque já está em 86% a redução de capacidade (de transporte) do metrô. A concessionária deixou de fazer o piloto automático da Linha 2. Eu sempre fui contra a criação da Linha 1A (ligação que passou a permitir ir direto da Pavuna a Botafogo, dispensando baldeação entre trens das linhas 1 e 2 no Estácio).

Fernando Mac Dowell%2C secretário municipal de TransportesDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Sua ideia é voltar a ter a baldeação no Estácio?

Sim, fazer a troca. Porque aquilo foi tudo estudado. Se eu puder fazer com que a concessionária perceba que fazendo isso ela vai ter um volume de tráfego muito maior, vai dar mais condições a ela de ânimo.

E a ampliação da rede?

Construção de nova linha não, porque a gente precisa ver problema de recursos.

O senhor é contrário ao BRT Transbrasil, cujas obras estão paralisadas?

Não devia ter sido feito. Sabe por quê? Os trens da SuperVia são absolutamente paralelos. Ficam quase um ao lado do outro. Sabe o que vai acontecer? Vamos pegar o dinheiro, pagar o que deve, fazer tudo, colocar em operação. Vai falir (o BRT). Aí, vão começar a encher o meu saco, que tem de aumentar a tarifa, porque não sei o quê. O BRT não vai ter como competir com a SuperVia. A capacidade da SuperVia é muito maior.

Então a prefeitura não vai continuar a obra?

Em princípio, vamos continuar. Em princípio. O que estamos fazendo é um estudo levando em consideração o que a prefeitura está devendo (à construtora), o que já foi feito, o que pode acontecer com a SuperVia, que tipo de prejuízo será esse. Se for pequeno, será feito.

Essa decisão deve sair até quando?

São coisas que você tem que fazer com muito cuidado e transparência. Assim que eu terminar, vou ao prefeito, a gente senta e eu vou explicar a ele a minha opinião. É claro que eu não quero perder nada de dinheiro que foi feito. Pode até ter uma alternativa. Vou respeitar o que a maioria (da equipe) quiser.

Qual o prazo para não haver aumento da tarifa de ônibus?

Nós não fixamos nada. Eles (empresários) vieram aqui. Eu pedi uma série de dados. Saí com duas sacolas de papel. Uma das coisas que consegui foi ter a demanda diária de passageiros online. Porque se não tiver online a demanda, ficam eles falando uma coisa, eu falando outra. Me deram várias coisas técnicas. O interessante é que eles não davam nada antes. Acho que a gestão anterior também não pedia. E aí vi que o município contratou a Pricewaterhouse (auditoria) e achei até legal, porque o escopo dela era para verificar os custos dos ônibus, operacionais, tudo. Mas aí você vai lendo, e parou. Não quiseram mais prosseguir.

Por quê?

Eu não sei. Pode ser que eles descobriram mesmo qual era o custo (risos).

O senhor vai chamar a Pricewaterhouse para terminar a auditoria?

Por enquanto não. Como eu já fiz muito projeto de concessões nesse país, desenvolvi metodologias, eu sei fazer isso. E faço de graça para o governo.

Quanto tempo deve levar essa avaliação?

Não estou preocupado. Não tenho a menor pressa.

E vai negar aumento antes de ter 100% da frota com ar, como já disse?

Exatamente. Isso eu fui claro com eles.

Há novo prazo para refrigeração dos ônibus?

Ainda não.

O que vai ser da reestruturação das linhas de ônibus concluída ano passado (51 linhas extintas, 26 encurtadas e 25 criadas)?

Aquilo foi a maior estupidez que eu já vi, porque eu sou da época que o Rio se orgulhava de ter a maior frota e o maior sistema de transporte coletivo. Você saía aqui e queria ir lá para não sei aonde, você ia. Agora, tem linha com menos 300 ônibus. Aí pergunto. Viu em alguma delas a tarifa baixar? Não. Por mim, faria algo (nas linhas) com tendência a voltar a ser o que era.

E se as empresas forem à Justiça requerer o reajuste, já que está no contrato de concessão?

Hoje (quinta-feira) conheci as procuradoras (do município) e discuti vários assuntos. Não vou dizer que nós não vamos nos preparar. Vamos. Eu tenho que defender as pessoas. Mexer em tudo não é tarefa simples, por isso falo da complexidade desse processo. Não fico me preparando para o cara me dar uma dentada para depois reagir. Eu já fico preparado para dar logo uma.

E o Uber? O senhor é a favor de regulamentar como São Paulo ou proibir?

Ele conseguiu uma fatia do mercado por uma questão que sempre falo: competência. Não posso proibir uma coisa que conquistou as pessoas. Mas sou amigo dos taxistas também. Temos de dar condições deles competirem. A gente tem de rever algumas coisas, porque também não adianta um ter fiscalização e o outro não. Tem que ter fiscalização nos dois, porque tem que proteger a população.

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