Casa que abriga travestis, transexuais e transgêneros corre o risco de fechar

Local oferece diversos cursos, como o conhecido 'PreparaNem'

Por O Dia

Rio - Sinônimo de militância e resistência, a Casa Nem está correndo o risco de fechar as portas. Além de abrigo, o local oferece diversos cursos a transexuais, travestis e transgêneros, como o de alfabetização, fotografia, gastronomia e o famoso 'PreparaNem', que envolve aulas preparatórias para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

No entanto, a ativista Indianara Siqueira contou que a imobiliária emitiu uma ordem de despejo e o prazo para sair da residência era até este fim de semana. Na próxima segunda-feira, ela se reunirá com advogados para tentar fazer um novo acordo.

Casa Nem corre o risco de fecharGoogle Maps

A idealizadora do projeto disse que, no início do ano passado, houve uma discussão entre ela e o coletivo Nuvem, o qual é responsável pelo imóvel. "Eu participava do grupo, mas eles tiveram uma atitude transfóbica. O coletivo já estava quase acabando, não estava dando mais certo mesmo. Então, resolvemos ocupar a casa em fevereiro do ano passado", explicou Indianara, que se candidatou à vereadora pelo Psol nas últimas eleições.

O aluguel mensal da casa, na Lapa, é de R$ 5,5 mil. Segundo a militante, ela e as outras moradoras pagavam em dia, mas começaram a atrasar o depósito desde novembro. Indianara lembra ainda que o local vive de doações. "Hoje temos uma dívida de R$ 30 mil, sendo R$ 20 mil é de aluguel", disse Indianara, acrescentando ainda que, antes da ordem de despejo, tentou estender o prazo para depois do Carnaval. "Mas o coletivo e a imobiliária não aceitaram. Vamos nos reunir segunda. Se não conseguirmos ficar, não há outra casa disponível", lamentou.

Indianara Siqueira e suas alunas na primeira formatura do 'PreparaNem' em 2015Felipe Martins / Agência O DIa

Nas redes sociais, as ativistas criaram uma "vaquinha" para ajudar no pagamento das dívidas. Até a publicação desta reportagem, as organizadoras já tinham recebido metade do valor. Na página, elas destacam ainda que a Casa Nem é "autossustentável".

Neste domingo, quando inicialmente teriam que entregar as chaves, Indianara e as outras militantes farão um evento simbólico na residência. "Vamos chamar outros movimentos sociais e queremos mostrar a força dessa Casa. O nosso projeto não pode acabar", enfatizou.

Em nota, o coletivo Nuvem explicou que a residência foi ocupada por Indianara e até hoje há uma dívida de mais de R$ 30 mil em alugueis e contas. "Para se apropriar do nosso espaço e justificar o injustificável, Indianara fez uma campanha difamatória nas redes nos acusando de transfobia e outros, fez ameaças de morte, lançou um boicote ao nosso bar, que era a nossa principl fonte de renda", se defendeu o grupo.

Leia a íntegra da nota do coletivo Nuvem

?"A nossa casa coletiva foi invadida por Indianara Siqueira, candidata a vereadora do Psol em fevereiro de 2016. Até hoje, nós da Casa Nuvem, ainda locatários do imóvel, acumulamos uma dívida de mais de R$ 30 mil de alugueis e contas sem pagar.

Para se apropriar do nosso espço e justificar o injustificável, Indianara fez uma campanha difamatória nas redes nos acusando de transfobia e outros, fez ameaças de morte, lançou um boicote ao nosso bar, que era a nossa principl fonte de renda. Finalmente, invadiu o espaço, ficando com grande parte das nossas pertences de mais valor somando mais de R$ 15 mil.

Para evitar a violência que aconteceria no caso de forçar a convivência ou expulsar as pessoas que invadiram a nossa casa, seguramos a dor, apertamos os dentes e decidimos facilitar a subsituição dos nossos nomes no contrato ao nome de Indianara. A Nuvem fez mediação com os donos apresentando a Indianara como uma das sócias do coletivo que iria nos substituir no contrato. Mantivemos o silêncio para tentar evitar ruidos nas redes e mais ataques que dificultariam a mediação.

Mas, até hoje, os muitos prazos acordados com Indianara não foram respeitados. Tem sido uma agonia lidar há um ano com promessas não cumpridas, ao mesmo tempo que tentávamos facilitar a “ocupação” do nosso próprio espaço por quem havia agido tão perversamente para ficar com ele.

Todas sabemos que as pessoas trans são alvo sistemático da injustiça e da violência, mas também é certo que nos da Nuvem sofremos o uso da acusação de transfobia como arma para conseguir beneficios pessois. Os meios não justificam os fins."

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