Uma mulher foi agredida a cada quatro minutos durante o Carnaval

Na Lapa, uma jovem levou socos no rosto após confrontar um homem que a assediou em um bar na Avenida Mem de Sá

Por O Dia

Rio - Uma mulher foi agredida a cada quatro minutos durante o Carnaval do Rio. Entre as 8h da última sexta-feira e as 8h desta quarta-feira, a Polícia Militar recebeu um total de 2.154 chamadas para atender ocorrências de violência contra a mulher, totalizando 14% da denúncias recebidas durante o feriado. Vale ressaltar que o número é calculado com base nas denúncias recebidas através do 190 e que muitas vítimas não reportam o caso por medo ou vergonha, o que significa que o índice é mais alto. 

Mulher foi agredida com dois socos Reprodução Facebook

Na Lapa, uma jovem levou socos no rosto após confrontar um homem que a assediou em um bar na Avenida Mem de Sá, na madrugada da última segunda-feira. O caso  foi registrado na 5ª DP (Gomes Freire). Elisabeth Henschel  publicou imagens da agressão na Internet e o caso viralizou. 

Segundo a polícia, o total de denúncias recebidas durante o feriado foi 15.943. Destas, 298 suspeitos foram presos ou apreendidos. No caso da jovem, o agressor foi localizado por uma equipe do Lapa Presente e autuado por agressão.

Outro caso de violência contra mulher ocorreu na noite da última terça-feira após um casal de amigos que estava na Lagoa, na Zona Sul, chamar um Uber com destino à Tijuca, na Zona Norte.  

Na ocasião, Mariana Reis estava com o amigo Rafael Lundgren quando foi agredida pelo motorista após ele discordar do valor da corrida dado pelo aplicativo. A jovem foi jogada no chão, levou socos e teve os ligamentos do braço rompidos. Ao tentar defendê-la, e dizer que iria denunciá-lo, o rapaz apanhou e foi vítima de homofobia. 

Neste domingo de Carnaval, mulheres que faziam campanha contra o assédio foram agredidas no Rio. Na ocasião, um grupo de mulheres divulgava material da campanha Carnaval sem Preconceito, da Caixa de Assistência dos Advogados do Rio de Janeiro (Caarj). Segundo o órgão, elas conversavam com os foliões quando ouviram xingamentos e foram assediadas verbal e fisicamente.

O número de mulheres unidas contra o assédio no Carnaval aumentou significativamente. Com mais consciência sobre a autonomia de seus corpos, elas saíram às ruas vestidas como queriam. Algumas com os seios de fora e outras só de maiô ou body. Era comum ouvir: "Se posso usar maiô na praia, posso usar no bloco também."

Em destaque na luta contra o machismo, o bloco "Mulheres Rodadas" saiu do Largo do Machado em cortejo até o Aterro do Flamengo nesta Quarta-Feira de cinzas. O grupo se destaca por fazer ações para conscientização não só no Carnaval, mas durante o ano inteiro.

A Divisão Policial de Atendimento à Mulher (DPAM) lançou uma campanha neste ano, chamada "Estandarte da Coragem", para incentivar as vítimas a denunciarem os agressores.

Vontade das mulheres não é respeitada

"O "Não" é uma palavra inexistente para alguns homens. Apesar de os temas do assédio e da violência contra a mulher estarem sendo cada vez mais discutidos, o Brasil ainda é uma sociedade patriarcal e profundamente machista", diz a psicóloga Adriana Nunan.

O pensamento de que as mulheres só existem para servir aos homens ainda está muito enraizado nos países latino-americanos. Além disso, esse aumento de visibilidade de agressão contra a mulher causa uma reação nos agressores, que se veem perdendo espaço. 

Para o psicoterapeuta sexual Oswaldo Rodrigues, o assédio ocorre por conta da criação de homens que foram treinados desde criança a enxergar mulheres como uma propriedade. "Por não aceitarem esse período de transição pelo qual as mulheres estão passando, onde estão ganhando mais voz e mais liberdade e consciência do que querem, os homens não entendem que já não são mais eles que decidem tudo. Assim, alguns ignoram as vontades e opiniões das mulheres para fazer valer o seu desejo".

De acordo com a psicóloga Olívia Porcaro, "existem setores da sociedade que estão reagindo às minorias para defender seus direitos de uma forma violenta. É como se a autoafirmação dessas minorias (mulheres, feministas, gays, lésbicas) fossem vistas por eles como uma afronta". 

No entanto, uma relação só pode acontecer quando ambos desejam e chegam a um acordo. O não dito pela mulheres, é uma recusa à abordagem do agressor. Não existe mais a ideia de que um "não" possa representar um outro significado a não ser o prórprio: ato de negação.








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