Roubos de celulares seguidos de agressões às vítimas tornam-se mais comuns

Conforme estatísticas do Instituo de Segurança Pública (ISP), pelo menos duas pessoas têm o celular levados por hora no Rio de Janeiro

Por O Dia

Rio - Noite de terça-feira de Carnaval, 22h, Rua do Riachuelo, Lapa. Enquanto aguarda uma amiga na porta de uma lanchonete, a jornalista Carolina Moura, de 22 anos, é cercada por quatro ladrões mascarados, que exigem seu iPhone. Mal teve tempo de tirar do bolso o aparelho, de R$ 1,8 mil. Além de ter tido o equipamento roubado, ela foi jogada com violência no chão, levou pontapés e teve luxações e arranhões nos braços e nas mãos.

A jornalista Carolina Moura foi assaltada na Rua do Riachuelo%2C no CentroAgência O Dia

Ataques desse tipo foram comuns nos dias de folia carioca. A Polícia Civil alega não ter ainda a quantidade de ocorrências no período na página online da corporação, uma vez que os agentes estão em greve nas delegacias. Mas repetidos relatos nas redes sociais, em diferentes horários do dia e locais, demonstram a ousadia dos bandidos. “Me senti humilhada. Sou uma mulher. Como podem quatro homens me agredirem daquela forma por causa de um celular?", desabafa Carolina, indignada.

Assim como ela, conforme estatísticas do Instituo de Segurança Pública (ISP), pelo menos duas pessoas têm o celular levados por hora no Rio de Janeiro. Especialistas, porém, acreditam em números bem mais altos, uma vez que 50% das vítimas deixam de registrar os roubos. Por ameaças ou para evitarem a burocracia e espera nas delegacias. Só em 2016, 19.583 celulares foram roubados das mãos de usuários no estado. O número é 63% maior que os 12.038 do ano anterior.

De acordo com o coronel Venâncio Moura, diretor de Segurança do Sindicato de Transportes Rodoviários de Cargas e Logísticas (Sindicargas), amargando prejuízos monumentais no setor, os fabricantes e empresas de telefonia passaram a optar por fazer entregas em carros blindados. "Os custos são altíssimos, mas dessa forma, fracionada, evita-se o roubo de milhares de aparelhos valiosos de uma só vez", ressalta Venâncio.

A nova estratégia, porém, obrigou as quadrilhas também a adotarem novas formas de atuarem, invadindo lojas, principalmente em shoppings, e aumentando os ataques nas ruas e no interior de transportes públicos. No domingo de Carnaval, a publicitária Carolina de Carvalho da Rocha, de 28 anos, por exemplo, estava com amigos no Bloco Cordão do Boi Tolo, no Aterro do Flamengo, quando um homem, usando uma peruca, arrancou-lhe o celular, da Samsung, avaliado em quase R$ 1 mil, das mãos. Ela já havia sido atacada da mesma forma no Carnaval do ano passado, ficando sem o celular.

"Dessa vez, tive uma atitude surpreendente. Saí correndo atrás do bandido, gritando `pega ladrão´, até que ele tropeçou e caiu, deixando o celular escapar de suas mãos. Consegui recuperá-lo", conta Carolina. Jorge Lordello, especialista em Segurança Pública e Privada, porém, desaconselha o tipo de reação que a publicitária teve. "Nunca se sabe se o bandido está armado e qual será sua reação. É melhor perder o equipamento do que a vida", justifica. 

Linha direta: ladrões e maus comerciantes

Para onde vão os aparelhos roubados em cascata no Rio? E o lucro com as vendas? A Polícia Civil garante já ter descoberto o fio da meada das quadrilhas, mesmo se queixando da burocracia para obter informações junto às operadoras, através de vias judiciais lentas, que muitas vezes impedem prisões em flagrantes dos criminosos.

"Se tivéssemos mais autonomia para checar dados, as investigações seriam mais rápidas, propiciando mais prisões", garante o delegado Celso Gustavo Ribeiro, da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM).

Nos últimos três meses, pelo menos 20 pessoas foram indiciadas por crimes de roubo e receptação de grandes volumes de celulares roubados. Uma delas é Diego Lima, de 27 anos, preso por homens da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC). Com ele, segundo o delegado da especializada, Maurício Mendonça, foram recuperados mil celulares Samsung, avaliados em mais de R$ 1 milhão.

“Ele já tinha passagem pela polícia e é um dos maiores receptadores de telefones móveis da capital. Distribuiria aparelhos roubados de um depósito em Caxias para maus comerciantes do mercado popular da Uruguaiana", revela Maurício.

Na sexta-feira, Daniele Celestino foi presa por receptação dolosa. Daniele estava com um dos centenas de celulares roubados de uma loja na Tijuca ano passado. Recebeu mensagensda operadora, através do número secreto de IMEI (uma espécie de chassis do celular) informando que o aparelho era roubado. "Mesmo assim permaneceu com o aparelho, ao invés de entregá-lo à polícia, como recomenda a mensagem”, comentou Celso. Foi o primeiro caso dessa natureza.

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