Peritos encontraram quatro ferimentos em Maria Eduarda no local do crime

'Não quero dinheiro, só quero Justiça. Eles assassinaram minha filha. Quando é bala perdida é uma só, foram três. Três balas atingiram ela. Foi assassinato', disse o pai da adolescente, morta dentro de escola em Acari

Por O Dia

Rio - Peritos encontraram quatro ferimentos — dois perto da nuca e dois nas nádegas — no corpo da adolescente Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, morta na tarde desta quinta-feira dentro da escola onde estudava em Acari. O laudo da necropsia ainda não está pronto. A declaração de óbito da adolescente aponta "ferimentos transfixantes no encéfalo por projéteis de arma de fogo".

No IML, o pai da menina, o pedreiro Antônio Alfredo da Conceição, de 63 anos, estava muito emocionado. "Meu coração está partido no meio. Você tem uma cria e cria ela na maior dificuldade, trabalhando. Eu sou pedreiro, honesto. E de repente, um indivíduo vem e tira o bem mais precioso que você tem. Qual é o pai que não vai sentir um pedaço sumir dentro dele? Eu criei, trabalhei, mão calejada, trabalhei duro para dar o que podia para minha filha. Ai meia dúzia de PMs, sem preparo nenhum, saem dando tiro para cima e para baixo como se estivessem matando um monte de passarinho. E tiram a vida de uma criança de 13 anos", disse aos prantos o pai da menina.

Pais de Duda%2C com a blusa que era usava no momento em que foi atingida dentro de escola em Acari e o buraco deixado pela balaRafael Nascimento / Agência O Dia

"Mas tem Deus, aquele lá de cima, que vai confortar a mim e a minha mulher. E a Justiça aqui na Terra tenho certeza que alguém vai olhar por nós. Não quero dinheiro, só quero Justiça. Eles assassinaram minha filha. Quando é bala perdida é uma só, foram três. Três balas atingiram ela. Foi assassinato."

Atleta de basquete, ela colecionava medalhas conquistadas no esporte. Na manhã desta sexta-feira, os pais e o irmão de Duda, como era carinhosamente chamada, estiveram no Instituto Médico Legal para liberar o seu corpo. Os pais da menina carregavam a blusa que ela usava no momento em que foi atingida, onde é visto um enorme buraco provocado pela bala. O enterro da jovem está marcado para a manhã deste sábado no Cemitério Jardim da Saudade de Edson Passos, em Mesquita, na Baixada Fluminense.

Maria Eduarda Alves da Conceição%2C 13 anos%2C foi morta a tiros dentro da escola em que estudava%2C em AcariReprodução Facebook

"Mataram o meu bebê. Ela foi embora. Os policiais mataram ela. Meu Deus, ela tinha apenas 13 anos. O que vai ser da minha vida? Eles acabaram comigo", desabafou a mãe de Maria Eduarda, Rosilene Alves Ferreira, 53 anos. "Treze anos, atleta, estudante, tinha sonhos, e os polícia (sic) acabaram com os sonhos dela", disse a acompanhante de idosos, que trabalhava dentro de um hospital quando recebeu a notícia e passou mal.

Um dos incentivadores da irmã, Uidson Alves Ferreira, de 32 anos, que é professor de artes marciais, estava revoltado.

"Agora não estamos pagando mais só impostos. Estamos pagando com o sangue das nossas crianças", disse. "Ela era atleta amadora e sonhava em se tornar profissional. Ela tinha menos de três anos no esporte e já tem nove medalhas. Ela ganhou uma bolsa para estudar em uma escola de bacana na Barra da Tijuca porque ela era boa no basquete", contou.

Segundo a mãe de Maria Eduarda, não havia operação policial no momento em que a adolescente foi atingida. "Não tinha operação. Estavam dando tiro do outro lado do rio, uma distância de 300 metros, e ela estava no colégio, eles dando tiro para o outro lado da comunidade. Eu quero Justiça, para que não aconteça como outras crianças que precisam estudar, que estudam neste colégio."

O presidente da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, esteve junto com a família de Maria Eduarda no IML. Segundo ele, as mortes de tantas crianças vítimas da violência deveria chocar e mobilizar a toda a sociedade.

"A morte de Maria Eduarda não é um caso isolado. Desde 2007, 33 crianças foram vítimas de bala perdida, de 2015 para cá 20, só este ano três, entre elas uma filha de policial militar. Em geral essas mortes ocorrem em confronto entre policiais e traficantes em comunidades pobres com famílias que perderam seus parentes queridos completamente desamparados pelo estado. Em qualquer cidade europeia ou americana a sociedade não deixaria passar em branco a morte de uma criança."

De acordo com Costa, as mortes em comunidades carentes não chocam. "Infelizmente vai virar estatística, porque é uma morte em uma região que moram pessoas que para o poder público são invisíveis. São pessoas que gritam e não são ouvidas. Não há mínima dúvida de que 33 mortes de crianças na Zona Sul do Rio teria outro peso. É fato, 80%, 90% das mortes são em comunidades pobres. Porque não nos revoltamos com uma situação dessas?" criticou.

A ONG Rio de Paz fará uma homenagem para Duda, com fotos e rosas, na Lagoa, no mesmo local que o médico foi morto a facadas. Já no final da tarde, depois do enterro, a ONG irá até o colégio e o colocará os nomes de todas as crianças mortas por bala perdida no estado.

Parentes de mortos no IML

Os parentes dos homens que foram executados por dois PMs enquanto agonizavam no chão em Acari também estiveram no IML para retirar os corpos. A mulher e irmã de Alexandre do Santos Albuquerque, 38 anos, o segundo ser atingido por disparo no vídeo, disseram não saber de seu envolvimento no crime.


"Eles correram e a PM atirou na perna deles. Antes do meu irmão morrer, ele ficou lá caído e poderia ter sido preso. Não sei se ele era envolvido ou não. Se fosse, teria que ter sido preso e não executado", falou a diarista Alessandra dos Santos, 37 anos, irmã de Alexandre.

"Mesmo se estivesse errado, tinha que ser socorrido, não executar. Não tinham que fazer aquilo com o meu marido", disse aos prantos, a manicure Bruna Maria Silva, de 27 anos, mulher de Alexandre. "Estamos juntos há cinco anos e ele sempre pensava nas crianças. Eu ainda não tive coragem de ver o vídeo. Estava no trabalho, na Pavuna, quando me falaram que ele tinha sido assassinado. Sai correndo e fui pra lá."

Reportagem do estagiário Rafael Nascimento

Colaboraram: Adriano Antunes e Gabriela Mattos

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