Palácio das relíquias

Local de trabalho do prefeito do Rio, em Botafogo, abriga obras de arte e histórias do século 18

Por O Dia

Rio - Sob as bênçãos do Cristo Redentor e cercado por esculturas de deuses gregos como Marte, Mercúrio e Minerva, o Palácio da Cidade, em Botafogo, abriga obras de arte do século 18 e guarda a memória de quando o local deixou de ser a sede da Embaixada Inglesa no Brasil para se tornar o local de trabalho do prefeito da cidade, em 1975.

Jarros chineses de 1736, castiçais do Segundo Império brasileiro e uma tapeçaria de mais de cinco metros de comprimento decoram, entre outras obras, o segundo andar da casa.

Palácio da Cidade tem esculturas e arquitetura da época em que era sede da Embaixada InglesaMárcio Mercante / Agência O Dia

Funcionário do Palácio há 17 anos, Paulo Pimenta é responsável pelo cerimonial da casa e é muito cuidadoso com o acervo. “Chego a ser chato”, admite. “Sei que a casa não é minha, mas cuido como se fosse. Tem gente que quer botar mão em tudo”, brinca. O lugar, que é palco de grandes recepções, já recebeu nomes como Papa Francisco, além de artistas e autoridades políticas de outros países.

No primeiro andar funcionam as salas administrativas. Reza a lenda que havia uma adega onde hoje funcionam as pastas de relações internacionais e de obras sociais, mas ninguém confirma. No entanto, é no segundo andar que os olhos brilham. Na antessala, um piano, que já foi tocado por Cristóvão Bastos, acompanhando a cantora Nana Caymmi, faz as honras.

'Sei que a casa não é minha%2C mas cuido como se fosse. Tem gente que quer botar a mão em tudo'%2C Paulo Pimenta%2C funcionário do Palácio Márcio Mercante / Agência O Dia

“O Cesar Maia era fã da Nana e, durante uma festa surpresa, eles fizeram essa homenagem ao prefeito”, conta Pimenta. “O (Luiz Paulo) Conde também usava bastante o piano. Ele adorava fazer saraus para amigos aqui”, diz.

Tendo São Sebastião como padroeiro da cidade, uma referência ao Santo não poderia faltar, mesmo no mandato de um prefeito evangélico, como Marcelo Crivella. A imagem de bronze composta por pedaços de arruelas, cadeados, parafusos e outros itens de ferro, tem 2,50 metros de altura e foi feita pelo escultor peruano Mario Agostinelli. Ela decora o jardim de inverno no segundo andar.

O piano que decora a antessala do segundo andar já foi tocado pelo pianista e arranjador Cristóvão Barros%2C em companhia da cantora Nana CaymmiMárcio Mercante / Agência O Dia

Em uma das duas salas, um lustre com 66 luzes e 3 metros de altura ilumina a tapeçaria do artista mineiro Augusto Degois. A obra, que tem mais de 5 metros de comprimento e decora uma das paredes, representa a missão da igreja no mundo.

Na sala à esquerda, mais referências religiosas: um oratório feito em madeira de jacarandá e folhas de ouro, guarda um relicário e uma Bíblia Sagrada, doada ao Palácio por uma antiga funcionária há 17 anos. “Dona Gilda era muito religiosa e vinha aqui rezar todo dia. A Bíblia era dela”, explica Pimenta. O Livro Sagrado fica aberto no Salmo 91, considerado pelos cristãos, a oração mais poderosa da Bíblia.

Oratório feito em madeira de jacarandá e folhas de ouro guarda um relicário e uma Bíblia Sagrada%2C doada há 17 anos por antiga funcionáriaMárcio Mercante / Agência O Dia

Na mesma sala, um armário chinês do século 18 compõe o ambiente. A peça, em laca marrom com figuras coloridas em relevo e detalhes em marfim, é de uma riqueza tão grande de detalhes que é possível ficar horas admirando. 

Funcionário guarda histórias dos quase 70 anos do Palácio

Com 60 mil m², o Palácio da Cidade foi projetado por arquitetos ingleses e construído, em 1949, no estilo Adams, que consiste em pé direito alto e detalhes leves nas paredes e pilares. O imóvel é recheado de itens históricos, mas peça rara mesmo é o seu José Medeiros Filho, de 79 anos, sendo 39 dedicados à casa.

Ele é um dos responsáveis pelo setor de relações internacionais do Palácio e fala 11 línguas, entre mandarim e árabe.  

Escultura rústica de São Sebastião enfeita o jardim de invernoMárcio Mercante / Agência O Dia

“Fui tradutor quando a (princesa) Diana e o (príncipe) Charles vieram para um jantar com o Marcelo Alencar e o Brizola, que não falava inglês. Não podia pedir para eles repetirem o que falavam, então li um manual de etiquetas britânico para poder dialogar. Só assim me senti mais seguro pra conversar com eles. É muita responsabilidade”, conta José Medeiros Filho, que é filho do premiado fotojornalista José Medeiros.

As histórias do simpático anfitrião são hilárias e sigilosas. “Só falo do pessoal que já morreu para não ter problema”, brinca. “Uma vez a rainha da Suécia e os reis da Espanha vieram para um jantar, que foi transferido para o Asa Branca. Na entrada foi a maior confusão porque misturaram os nomes dos convidados nas mesas. Na hora que a realeza chegou alguém gritou ‘cada um senta onde quiser’ e o Carlos Imperial (compositor) sentou no lugar de um Orleans e Bragança”, conta José, aos risos.

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