Índices de violência estão perto dos registrados antes das UPPs

Desde a última sexta-feira, quatro pessoas foram mortas na região do Complexo do Alemão

Por O Dia

Rio - Um amargo regresso. Os índices de violência registrados no primeiro bimestre de 2017, no Rio, indicam que o estado retrocedeu aos níveis de letalidade dos tempos em que não existiam UPPs. “Vivemos o pior momento dos últimos 10 anos no Rio. Estamos diante de um estado acéfalo. Policiais estão desestimulados e desesperançosos. Houve um retrocesso”, afirma o teólogo Antonio Carlos Costa, presidente da Organização Rio de Paz, que acompanha com lupa a progressão da violência fluminense.

O Complexo do Alemão, cuja ocupação, em 2010, com direito a hasteamento da Bandeira e Hino Nacional, que chegou a simbolizar o resgate de áreas dominadas por traficantes, é um dos retratos da decadência. Desde sexta-feira 21, quatro pessoas foram mortas na região.

Moradores protestam após morte de jovem e pedem paz para o Complexo do AlemãoFotos%3A Humberto Ohana/Parceiro/Agência

A última delas, ontem, quando Paulo Henrique de Oliveira, 13 anos, foi atingido por bala perdida durante confronto entre policiais e traficantes. Foi debaixo de uma chuva de balas que os policiais conseguiram instalara uma torre blindada no Complexo do Alemão, para proteger os policiais da UPP.

O Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPPs) informou que a implantação da torre blindada no Largo do Samba, na comunidade Nova Brasília, foi uma decisão estratégica para retomada do território.

A medida foi criticada pelo ex-comandante-geral da PM, coronel Ibis Pereira: “É uma imbecilidade. Essa cabine não vai resolver a segurança dos moradores e dos policiais. Os confrontos que estamos assistindo são fruto de um colapso no projeto das UPPs no Alemão, que começou em 2012. A Secretaria de Segurança se mostra incapaz de lidar com a situação. O silêncio do secretário de Segurança (Roberto Sá) me assusta”, avaliou.

Pereira afirmou que confia no sucesso do projeto das UPPs no estado, mas para isso, o governo estadual precisa remodelar as ações em algumas comunidades.

Indignados com a violência%2C moradores protestaram no AlemãoEfe

Os índices de homicídios, latrocínios, roubos de celulares e de automóveis explodiram, deixando a população atônita. Segundo as últimas estatísticas divulgadas pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), tendo fevereiro como referência, os homicídios dolosos (quando há intenção de matar) aumentaram 24,3% em relação a fevereiro de 2016 (404 em 2016 contra 502 em 2017).

A letalidade violenta (que abrange crimes como homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e homicídio decorrente de oposição à intervenção policial), registro 1216 casos no primeiro bimestre do ano.

A violência atinge até quem tem a missão de mantê-la sob controle. Nos quatro primeiros meses do ano, 58 policiais foram assassinados. Em contrapartida, os autos de resistência, mortes de suspeitos em supostos confrontos com a polícia, saltaram de 102 nos dois primeiros meses de 2016,para 182, no mesmo período de 2017. Aumento de 78%, o que indica que a guerra urbana está cada vez selvagem.

O roubo de veículos pulou de 3056 para 4287, incremento de 40%. O roubo de cargas, crime revestido de extrema violência, também bate recordes. Nos dois primeiros meses de 2017 foram 1145, média de 23 ataques por dia - um roubo do tipo a cada 76 minutos.

Para Antonio Carlos Costa, devido à magnitude da crise, apenas um esforço suprapartidário poderia tentar conter a escalada da violência no Estado. “Governo Federal, governo do estado, prefeitura, movimentos sociais e a sociedade como um todo têm que sentar e encontrar solução. O problema também passa pela questão da desigualdade social”, defende o presidente da ONG Rio de Paz. “Perdi o meu bebê. Não quero que outras mães chorem como eu”, diz Rosilene Alves Ferreira, mãe da menina Maria Eduarda, 13 anos, vítima de bala perdida, em Acari.

População sofre com a violência no dia a dia

Fernanda Kelly%2C 19 anosMaíra Coelho / Agência O Dia

Fernanda Kelly, 19 anos

“Estava na praia do Arpoador à noite com as amigas, quando fomos surpreendidas por dois rapazes, que chegaram pedindo cigarro. Um deles disse: ‘vamos fingir que somos amigos’, ameaçando nos esfaquear. Mandou a gente sentar e passar os celulares”.

Taiany Rocha%2C 27 anosMaíra Coelho / Agência O Dia

Taiany Rocha, bancária, 27 anos

“Já fui assaltada quatro vezes. No Estácio, roubaram meu colar. Estavam de bicicleta, me arranharam. Em Santa Teresa, levaram meu celular, relógio e mochila. Na Cidade Nova, vieram de moto. Em Copacabana, assaltantes fugiram a pé”.

João Silva%2C 34 anosMaíra Coelho / Agência O Dia

João Silva, 34 anos

“No Carnaval, sete homens vieram em minha direção. Eu estava com uma amiga e tentei reagir. Um me deu um chute. Derrubei outro e logo apontaram uma pistola, me deram uma coronhada e levaram nosso dinheiro e celulares”.

Daniele Ribeiro%2C funcionária pública%2C 38 anosMaíra Coelho / Agência O Dia

Daniele Ribeiro, funcionária pública, 38 anos

“Estava grávida quando bandidos armados me atacaram no estacionamento de supermercado em Caxias. Eu estava com o meu marido. Nos sequestraram, roubaram o carro e nos largaram na Washington Luiz. Chorei muito pedindo ajuda”.

Olívia SilvaMaíra Coelho / Agência O Dia

Olívia Silva, não informou a profissão

“Já fui assaltada mais de dez vezes. Em uma delas, invadiram minha casa na Zona Oeste. Também roubaram meu carro na mesma região do Rio. Não sabemos mais o que fazer para nos proteger da violência urbana. Mas alguma coisa tem que ser feita”.

Colaborou o estagiário Matheus Ambrosio

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