Por gabriela.mattos
Publicado 29/04/2017 23:59 | Atualizado 01/05/2017 15:37
Cabral%3A de governador e cotado para vice-presidência a interno de Bangu Márcio Mercante / Agência O Dia

Rio - A chamada 'maldição do petróleo' é um conceito econômico que fala sobre a tendência de países com abundância de recursos naturais verem seu desenvolvimento solapado e as instituições enfraquecidas pela corrupção.

O conceito se aplica com perfeição ao Estado do Rio. Enquanto entravam nos cofres fartos recursos do petróleo, os gastos públicos aumentavam e as principais lideranças locais se metiam em transações nebulosas. Quando se reduziu o fluxo de dinheiro vindo do mar, a crise financeira se instalou. Ao se revelaram os esquemas de propinas e financiamento de campanha, especialmente com as delações dos executivos da Odebrecht, as tais lideranças caíram do pedestal.

O último governador (Sérgio Cabral) está preso; um ex-governador chegou a ir para a cadeia, mas foi solto por questões de saúde (Garotinho); o presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani, depôs sob condução coercitiva; ex-prefeitos como Cesar Maia e Eduardo Paes são investigados.

“Somos o estado no qual mais lideranças foram atingidas pelos escândalos”, diz o cientista político João Trajano de Lima Sento Sé. “Agora, estamos no vão, mas é a explosão de uma crise que vinha se desenhando havia muito tempo”.

O pesquisador se refere ao fato de o estado ter sido, nos últimos vinte anos, dominados por dois grupos políticos — o do governador Anthony Garotinho (1999-2006) — e o do ex-governador Sérgio Cabral (2007 até agora).

“Garotinho surgiu como uma novidade vinda do interior. Mas logo se revelou um político à moda antiga. O grupo de Cabral surge com uma capacidade de cooptar lideranças muito forte, o que foi uma das chaves para o partido dele (o PMDB) manter essa hegemonia por tanto tempo”, analisa Sento Sé.

O ex-prefeito e senador Saturnino Braga, hoje aposentado da política, viu o nascimento das lideranças que hoje dominam o Estado do Rio. “São lideranças muito fracas. (Jorge) Picciani era do meu partido (PSB), uma figura com pouca ou nenhuma expressão. A gente se assusta com a evolução patrimonial dele!”, diz.

Veja a 'escalação' dos políticos do RioArte O Dia

Saturnino vê o encarecimento das campanhas eleitorais como um fator preponderante no esquema de promiscuidade entre o mundo político e o empresarial que se tornou a regra no país, em especial no Estado do Rio. “Antigamente, se fazia campanha com santinho; a TV era ao vivo. Aí, chegou a era dos marqueteiros. Os políticos começaram a pensar em arrecadar para a próxima campanha no dia seguinte à eleição. E os esquemas de arrecadação passaram a ditar a atuação política. As empresas se aproveitaram de quem estava disposto a compactuar. Eu vi isso se desenvolver diante de mim”.

Para muitos, foi surpresa que logo no Rio — que ostenta uma suposta vocação progressista e é chamado de “caixa de ressonância” das questões nacionais —, exista esse acúmulo de lideranças políticas sob suspeita. “Acho que esperamos demais do Rio de Janeiro”, acredita o sociólogo Marcelo Castañeda (Uerj). “É um mito. Historicamente, tirando o período de Brizola, o estado elege políticos do campo conservador e, muitas vezes de estatura política menor”.

Para Sento Sé, o governador Pezão é um símbolo dessa tendência. “Chegamos a essa figura provinciana, completamente desarticulada”.

O cenário pode melhorar em 2018?

“Nós vamos ter mudanças na próxima eleição. Mas acho muito cedo para dizer que o PMDB está ferido de morte. Há lideranças menos chamuscadas na capital e o interior é um caso ainda a avaliar”, diz Marcelo Castañeda, ao tatear o cenário eleitoral “depois da avalanche de denúncias”.

Nessa visão, despontaria o nome do ex-prefeito Eduardo Paes, considerado um político ainda capaz de mobilizar o eleitorado. “É algo que vai depender de ele se dissociar do grupo capitaneado pelo Cabral. E, claro, não ser atingido fatalmente pelas denúncias que ele sofreu”, diz Sento Sé.

O pesquisador vê dificuldades pelas extremidades do campo político. “Bolsonaro tem capacidade para fazer barulho, mas não o vejo como liderança capaz de conquistar um mandato de governador. Representa um segmento difuso. Já a esquerda carrega o peso da rejeição depois que o PT não se mostrou à altura da sua missão histórica. Todo o campo tem que carregar esse peso. E o Psol, que vem conquistando espaço, ainda está na infância da atuação política”.

Saturnino, citando nomes tão díspares como Garotinho e o deputado Chico Alencar (Psol) adverte: “A eleição de 2018 vai se dar com os nomes já conhecidos. Não se constróem lideranças em seis meses”.

Sérgio Cabral

O ex-governador está preso em Curitiba desde dezembro. É acusado de corrupção passiva 49 vezes e lavagem de dinheiro 164 vezes.

Pezão

O ex-vice de Cabral e atual governador é alvo de ação por improbidade administrativa. Foi cassado pelo TRE-RJ ( está recorrendo). Um delator da Odebrecht disse que destinou à sua campanha R$ 23 milhões, a pedido de Cabral.

Eduardo Paes

O ex-prefeito é investigado em inquérito, sob a acusação, feita por um delator da Odebrecht, de ter recebido R$ 16 milhões. A ideia da empreiteira era "a facilitação de contratos relativos às Olimpíadas de 2016".

Rodrigo Maia

Presidente da Câmara, teria recebido, segundo delação, R$ 350 mil para o seu partido, em 2008, e outros R$ 100 mil para garantir aprovação de uma MP com incentivos tributários que favoreceriam a Braskem.

Cesar Maia

É acusado de ter recebido da Odebrecht R$ 600 mil para sua campanha, em 2010, por solicitação do filho, Rodrigo Maia.

Jorge Picciani

O poderosos presidente da Assembleia Legislativa sofreu condução coercitiva na Operação Quinto do Ouro. Também é investigado por enriquecimento ilícito.

Lindbergh Farias

O senador é alvo de inquérito por suposto recebimento de R$ 4,5 milhões da Odebrecht nas campanhas de 2008 e 2010. Em troca, teria beneficiado a empreiteira no programa Pró-Moradia, em Nova Iguaçu.

Jandira Feghali

Responde a inquérito por possível crime eleitoral. Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, diz ter destinado R$ 100 mil à deputada na campanha de 2010.

Paulo Melo

O deputado estadual Paulo Melo (PMDB) foi acusado de ter recebido, via Caixa 2, R$ 250 mil da Odebrecht na campanha de 2014. O delator afirmou que Melo, um dos parlamentares mais influentes da Alerj, recebeu Caixa 2 em várias eleições.

Garotinho

Um executivo da Odebrecht disse que o ex-governador e a esposa, Rosinha, receberam um total de R$ 9,5 milhões em recursos de Caixa 2 da empreiteira. Segundo o delator, as colaborações garantiam preferência para a empreiteira em pagamentos em Campos.

Eduardo Cunha

O outrora poderoso presidente da Câmara, que teve 232 mil votos em 2014 — 3º mais votado do estado — está preso desde outubro e foi condenado a 15 anos e 4 meses por corrupção e lavagem e evasão de divisas.

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