Motoristas entre a cruz e a espada

Pezão sanciona lei que proíbe pardais em áreas de risco mas especialistas temem mais acidentes

Por O Dia

Rio - Agora é lei. Em todo o estado está proibida a instalação de novos radares, conhecidos como pardais, e lombadas eletrônicas, em áreas consideradas de risco. Os que existem nos pontos de maior incidência de assaltos terão que ser desligados gradativamente, conforme informações dos batalhões da Polícia Militar baseadas nos índices de violência.

A nova lei (7.580/17), sancionada pelo governador Luiz Fernando Pezão, depois da aprovação por unanimidade (55 votos a zero) pela Assembleia Legislativa, foi publicada ontem no Diário Oficial do Estado e bate de frente, literalmente, com especialistas em segurança no trânsito.

Equipamento localizado na Av. Dom Helder Câmara%2C altura do número 6742%2C é um dos que podem ser desligados%2C segundo Comissão da AlerjGoogle Street View

Enquanto os políticos garantem que motoristas vão trafegar com mais segurança, engenheiros de tráfego afirmam que a medida apenas vai trocar “seis por meia dúzia”, expondo condutores a riscos de acidentes fatais.

O vice-presidente da Comissão de Transporte da Alerj, Dionísio Lins, disse que enviou ofício à Secretaria estadual de Segurança, pedindo que as unidades da PM no estado enviem relatórios atualizados, com os pontos de maior incidências de crimes.

“Os endereços serão encaminhados ao governo do estado e aos municípios para que, sem prejuízo aos cofres públicos, recomendem às empresas prestadoras de serviço que desliguem os equipamentos”, adiantou o deputado.

Levantamento informal da vice-previdência da comissão apontou pelo menos 20 endereços dados como certos para o provável desligamento de pardais. A relação é apoiada em matérias na imprensa e registros de crimes em delegacias.

Somente a capital tem 1.200 equipamentos de controle de velocidade, 714 deles monitorados pelo município, através da Companhia Estadual de Trânsito (CET-Rio). Só nos três primeiros meses deste ano, os redutores de velocidade eletrônicos foram responsáveis pela arrecadação de R$ 9,4 milhões em infrações para os cofres do estado, o equivalente a R$ 4,3 mil por hora.

O assunto foi o que mais motivou ligações para o Disque-Multas da Alerj: 1,4 milhão. Ano passado, a prefeitura do Rio chegou a arrecadar até R$ 475 mil em um dia com multas de trânsito.

Em um ano, 36 mil vítimas

No Rio, em 2016, 36.726 pessoas foram vítimas, entre feridos e mortos, nas vias de todo o estado, conforme dados do Detran e do ISP (Instituto de Segurança Pública). Boa parte das ocorrências se deu à noite, após 22h, horário em que boa parte de pardais normalmente já é desligada por conta da violência.

Em nota, a CET-Rio informou que a empresa “observa atentamente possíveis alterações nas legislações e normas relativas ao tráfego de veículos e prontamente buscará adequação aos parâmetros legais, se assim for necessário”.

Legislação é criticada

Fernando Moreira, especialista em medicina do trânsito pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet-RJ), vê a nova lei com preocupação. Segundo ele, nos países mais avançados, a educação no trânsito passa por equipamentos, como os pardais.

“Há outros meios de se coibir a violência. O cidadão pode escapar de um assalto em uma esquina, e morrer em um acidente na outra, onde não existe pardal”, comparou.

Coordenador da ONG Trânsito Amigo, o engenheiro Fernando Diniz também condena a retirada dos pardais. “No local sem radar, onde uma pessoa pode escapar de um assalto, 40 outras em um ônibus podem morrer em uma colisão, por falta justamente do equipamento”, lamentou.

Entre os motoristas, as opiniões se divergem. “Decisão acertada. Já não paro em áreas perigosas. Agora, então...”, comentou X., de 37 anos. “Acho um retrocesso. Violência se combate com mais polícia nas ruas e não com medidas demagógicas”, criticou o analista Josenil Fernandes, 40.

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