Apesar de medida protetiva, mulher agredida diz ter medo de ex-marido

'Eu tenho um papel me dizendo que ele não pode chegar perto de mim, nem da minha família. Mas isso não impede que ele me agrida novamente', afirma Danila Areal

Por O Dia

Rio - Quase uma semana após denunciar a agressão sofrida pelo ex-marido, Danila Areal, 28 anos, publicou um novo vídeo em sua conta no Facebook. Desta vez, cobrando à Justiça agilidade em casos de violência doméstica. "Rezem por mim para eu não virar uma estatística", diz a consultora de beleza em um trecho da publicação, que já foi vista por quase 200 mil internautas. Ao DIA, a jovem conta que apesar da medida protetiva, ela sente medo do que o homem poderia fazer contra ela. "Eu tenho um papel me dizendo que ele não pode chegar perto de mim, nem da minha família. Mas isso não impede que ele me agrida novamente".

Danila diz que sofreu agressões do ex-marido desde os primeiros meses de relacionamento.Reprodução Internet

Após a denúncia da mulher, a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Volta Redonda pediu a prisão preventiva de Douglas William Santos Morais, 39, na terça-feira. No entanto, a Justiça ainda não deferiu o pedido da delegada Maria Madalena Carnevale.

"Eu tentei prestar queixa no dia em que eu fui agredida, mas não consegui. Só quando o caso ganhou repercussão é que eu fui atendida como deveria ser. Eu não quero ser privilegiada", afirma a consultora à reportagem. "A lei deveria ser mais rápida nesses casos, é revoltante que ele ainda esteja solto", conclui.

A jovem conta que sua vida está desestruturada e que tem estudado a possibilidade de se mudar de cidade. "Eu tive que repensar minha vida toda. Eu gosto de morar em Volta Redonda, mas fico pensando se pelo bem da minha segurança deveria continuar aqui", afirma. 

Segundo Danila, por causa do trauma das agressões, ela sente medo de andar nas ruas. "Ontem eu fui numa loja a poucos metros de casa e entrei em pânico. Meu lado racional pensa que ele não iria fazer nada contra mim, diante dessa repercussão, mas o lado emocional pensa que ele não tem nada a perder", relata a jovem que tem sido acompanhada por psicólogos da Casa da Mulher de Volta Redonda.

Agressões acontecem desde o início do relacionamento

Danila diz se lembrar da primeira vez que foi agredida pelo ex-companheiro. "Foi em um domingo de 2009, a gente tinha uns quatro meses de relacionamento. Ele demorou muito para chegar em casa e eu estava preocupada. Ele chegou horas depois bêbado e quando eu questionei, ele me bateu", relembra.

Jovem conta que acreditava nas promessas de ex-marido de nunca mais agredi-laReprodução Internet

A consultora diz que o ex-marido pediu desculpas e disse que a amava, e prometeu que nunca mais faria aquilo. No entanto, de acordo com ela, as promessas se tornaram constantes, à medida que as agressões viraram rotineiras.

"Era um ciclo vicioso. Eu falava para as poucas amigas que tinha coragem de contar o que tinha acontecido, para gente ir na delegacia, mas ele me procurava dizendo que não faria mais. Eu acreditava e desistia de prestar queixa".

De acordo com Danila, as agressões eram veladas no início. "Ele fazia escondido, quase ninguém sabia, mas no último ano ele me agredia na frente dos meus filhos e eles saiam para pedir ajuda dos vizinhos".

No entanto, há um mês, a jovem resolveu colocar um ponto final na relação e se mudou para a casa da sua amiga - a mesma que estava com ela no dia da agressão. "Eu sentia muita vergonha e de alguma forma, de um jeito perverso, ele conseguia me fazer acreditar que eu tinha feito algo errado e que merecia aquela agressão".

"Eu não quero gerar mais violência", diz Danila

A vendedora de cosméticos afirma que seu único desejo é que o ex-marido seja condenado pela Justiça. "Eu quero que ele pague pelo que ele fez, além disso quero que outros vejam que isso não pode passar impune", afirma.

Sobre tantos comentários agressivos contra o ex-marido, Danila não hesita: "Eu vejo muita gente jurando matá-lo. Eu não quero gerar mais violência".

A vendedora diz sentir pela ausência do ex-marido na vida da filha de 11 meses, mas afirma que irá fazer o possível para que ele se mantenha longe. "Nesse momento, eu estou prezando pela nossa segurança. Eu tenho medo que ele faça alguma coisa contra ela para me atingir." O DIA tentou contato com Douglas, mas ele não atendeu às ligações.

Danila Areal fez transmissão ao vivo no Facebook com marcas de hematomasReprodução Internet

Vídeo de denúncia da agressão já foi visto por quase 10 milhões de internautas

Na segunda-feira, Danila denunciou as agressões do ex-marido por meio de uma transmissão ao vivo no Facebook. Nas imagens que já foram vistas por quase 10 milhões de internautas, a vítima aparece com marcas de hematomas nos olhos, pescoço e braços.

A vítima afirma que ligou 17 vezes para o número 190 da Polícia Militar, mas não recebeu qualquer tipo de ajuda. Procurada, a corporação disse que este número é de responsabilidade da Secretaria de Segurança Pública. Em nota, o órgão esclareceu que a Central 190 recebe em média 7 mil ligações diárias, sendo que as ligações fora da Região Metropolitana migram para os batalhões locais.

Para a mulher, se expor na Internet foi uma saída para se manter viva. “Sempre fui muito vaidosa e me mostrar dessa forma foi o único jeito de pedir ajuda. Eu só queria que alguém pudesse me ajudar, tinha medo de morrer", diz. "No início, a minha sensação era de revolta e medo. Agora é de gratidão. O vídeo me ajudou muito", completa a jovem, que prestou depoimento nesta terça-feira, e conta com o apoio psicológico e jurídico da Casa da Mulher.

"Esse tipo de violência acontece todos os dias. O que aconteceu comigo, acontece com outras milhares. As mulheres morrem por isso e elas precisam denunciar. Quero ajudar outras mulheres", finaliza.

Uma amiga de Danila denunciou o caso para a secretária de Políticas Públicas para as Mulheres de Volta Redonda, Dayse Penna, que diz ter se chocado ao ver o relato da vítima. "Fiz o primeiro acolhimento, perguntei a Danila se ela conhecia os serviços da secretaria. Ela respondeu que não. Então ofereci a ajuda e me coloquei à disposição para qualquer emergência”, contou Dayse. 

 Reportagem da estagiária Luana Benedito, com supervisão de Thiago Antunes

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