Estudantes sofrem com o troca-troca de professores

Especialistas afirmam que medida em escolas estaduais prejudica desempenho

Por O Dia

Rio - Evasão escolar, mais repetência, baixo desempenho em vestibulares e, depois, no Ensino Superior e no mercado de trabalho. Especialistas em Educação alertam que são essas as consequências que podem sofrer os alunos da rede estadual cujos professores são remanejados para lecionar matérias nas quais não são formados, como O DIA mostrou. Com o fechamento de turmas de Ensino Médio, docentes que ‘sobram’ ficam sem classes, trocam de escola ou dão aulas de outras disciplinas.

Com enxugamento de turmas%2C professores dão aulas de outras disciplinasAlexandre Brum / Agência O Dia

Para a vice-diretora da Faculdade de Educação da UFF, Rosane Marendino, o troca-troca de professores traz, a curto prazo, possibilidades concretas de evasão. De acordo com a Unicef, 84,7 mil estudantes entre 15 e 17 anos no estado saíram da escola; neste ano, 150 mil vagas do Ensino Médio não foram preenchidas na rede estadual. A longo prazo, os impactos são maiores: “Os professores remanejados tapam buraco, mas é um remendo frágil em um pano que já está desgastado e vai ceder”.

O Sindicato dos Profissionais de Educação (Sepe) estima que já sejam 200 as escolas com turmas fechadas. Para estarem habilitados a lecionar outras disciplinas, basta que os professores tenham cursado 120 horas da matéria durante a faculdade. A carga horária mínima de uma licenciatura é de 2,8 mil horas, sendo 300 horas de estágio.

De acordo com Júlio Furtado, consultor em Educação, a prática de equivalência de profissionais ocorre com mais frequência em Física, Química, Geografia, Sociologia e Filosofia. “Há um grande problema de falta de professores. Os cursos de licenciatura estão em situação tão grave que podemos dizer que não teremos professores em 10 anos”, alertou.

O psicopedagogo Eugênio Cunha, doutor em Educação e pesquisador da UFF, afirma que os estudantes podem sofrer impactos na auto-estima em um momento crucial para a formação. A medida tem impactos na família do aluno e durante toda sua vida.

“Ele será acolhido em universidades privadas e os primeiros períodos serão de formação para suprir o aprendizado precário. Mais tarde, ele vai ter dificuldade em concursos e processos seletivos por carências do Ensino Médio. Isso perpetua desigualdades sociais”.

A Secretaria de Estado de Educação afirma que a medida de realocar professores no meio do ano letivo “não prejudica o conteúdo dado em sala de aula e se estranha quem coloca tal impropriedade”. A prática é “rotineira, praticada há muitos anos (...) em qualquer estado e escolas privadas”. 

Reportagem da estagiária Alessandra Monnerat, sob a supervisão de Rosayne Macedo

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