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PMs se 'gabavam' dos assassinatos

Sargento preso responde por 13 inquéritos por homicídios. Esquema de propina rendia R$ 1 milhão

Por thiago.antunes

Rio - Parte dos 96 PMs que serviram no 7º BPM (São Gonçalo) figura como alvo de investigações em pelo menos 200 casos de homicídios decorrentes de intervenção policial, os chamados confrontos durante operações, entre os anos de 2014 e 2016.

Os assassinatos eram usados para intimidar bandidos de facções criminosas a pagar propinas, como revelou a Operação Calabar, da Delegacia de Homicídios de Niterói, Itaboraí e São Gonçalo, deflagrada na quinta-feira. Até a noite de ontem, 80 PMs foram presos, além de 22 dos 76 traficantes investigados. Um cabo da quadrilha já foi expulso por envolvimento com o tráfico de drogas.

Polícia Civil espera que os PMs que não foram presos na Operação Calabar se entreguem até segunda-feiraEstefan Radovicz / Agência O Dia

O esquema de propina rendia aos PMs R$ 1 milhão, por mês, de 41 comunidades. Apontado como chefe do Grupamento de Ações Táticas (GAT) com maior faturamento, média de R$ 3,5 mil por semana, o sargento Andre Luiz de Oliveira Sodré, o Sobrancelhudo, aparece em 13 procedimentos sobre homicídio.

O companheiro dele na viatura que patrulhava todas as comunidades de São Gonçalo, o também sargento André Willians Sarmento da Silva, o Bichão, tem cinco homicídios registrados. O levantamento do DIA engloba registros em que o PM assinou como autor ou envolvido no confronto. Cada equipe do um GAT é formada por oito a dez homens.

“Os assassinatos eram uma forma de intimidar traficantes a pagar arrego. Essas quadrilhas trabalhavam para se manter nos locais e continuar com o esquema. Para isso também armavam apreensões e mantinham uma falsa estatística”, explicou o delegado Marcus Amin, um dos responsáveis pela investigação.

Polícia realizou megaoperação para prender 96 PMs. Militares lotados no 7º BPM (São Gonçalo) entre 2014 e 2016 são acusados de receber propina%2C além de venda de armasFoto%3A Estefan Radovicz / Agência O Dia

A guarnição batizada de ‘outro GAT’ que também arrecadava grande quantidade de arrego era do Luiz Fofoca, como é conhecido o sargento Luiz Claudio Martins Costa. Ele responde por cinco mortes. Já sobre um outro integrante da guarnição, Eduardo Augusto Fernando de Souza, o sargento Souza ou Souzinha, pesam 12 mortes registradas em confrontos. O sargento, Alessandro Costa de Assis, do GAT Fantasma I, tem oito anotações.

Antigo colega de farda dele e componente do GAT Fantasma I foi expulso da Polícia Militar acusado de ligações com bandidos do Morro do Marítimos, no Barreto, Niterói. De acordo com a decisão do Conselho Disciplinar da PM, Wesley Cavalcante de Melo, que tem sete homicídios registrados, recebia arrego para liberar o baile funk proibido na comunidade.

Integrantes de outro GAT, chamado de Marreta, o sargento André da Silva Aleixo e o soldado Fernando Cataldo têm juntos 20 autos de resistência. Já o sargento Josinaldo Vieira do Nascimento, do GAT Mochilão, possui 13.

“Acreditamos que vai ocorrer queda no número de homicídios e autos de resistência em São Gonçalo”, frisou Marcus Amin. Os policiais tiveram a prisão preventiva decretada pela 2ª Vara Criminal de São Gonçalo e pela Auditoria da Justiça Militar. Eles vão responder por crimes de sequestro, extorsão, organização criminosa, corrupção passiva, venda de armas, escolta de bandidos. As penas variam de 1 a dez anos de prisão.

Os PMs têm dez dias para apresentar as suas defesas à Justiça. A Polícia Civil espera que todos se entreguem até segunda-feira. 

Desafeto era transferido no batalhão

Tal qual uma grande empresa, que cobra resultados dos seus funcionários, a organização criminosa composta por policiais do 7º BPM punia um ou outro militar que falhava no recebimento da propina. Os policiais que não agradavam aos colegas de farda dentro do GAT durante recolhimento do arrego eram transferidos para uma outra unidade do batalhão.

“A punição deles era ir para o DPO (Destacamento de Policiamento Ostensivo), que recebe valor menor no arrego. Como o DPO era fixo, eles eram obrigados a ficar ‘presos’ na localidade em que estavam”, explicou o delegado Marcus Amin.

Para substituir os 41 policiais que ainda estavam lotados no 7º BPM, a PM decidiu que serão militares que atuavam em Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

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