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Em livro de crônicas, o divertido mundo dos jogadores da várzea

Textos humorados de Luiz Antonio Simas mostram o futebol real, sem nenhum glamour

Por thiago.antunes

Rio - Há anos, o professor de História Luiz Antonio Simas se dedica a contar a trajetória dos personagens menos glamurosos dos 517 anos de existência do Brasil. No lugar de imperadores, suas aulas tratam dos escravos; no lugar marechais, sambistas; no lugar de condessas, prostitutas.

Luiz Antonio Simas%2C que por 2 anos foi cronista no DIA%2C lança livroAlexandre Brum / Agência O Dia

Como cronista, Simas joga luz sobre o mesmo tipo de figura. Seu mais recente livro de crônicas, “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias de várzea”, lançado ontem pela Editora Mórula, usa essa fórmula, aplicada ao futebol. Nesses tempos em que o esporte movimenta cifras bilionárias, o autor se dedica aos times menores, aos jogadores praticamente anônimos, aos perdedores.

“É uma declaração de amor ao jogo que não é mensurado pela lógica desencantada do futebol moderno”, explica Simas. “É o futebol do clube pequeno, do artilheiro que não fazia gols, do goleiro que tomava seus frangos...”.

O esporte do mundo real é, portanto, a matéria-prima que o cronista usa para compor os 32 textos curtos do livro. Com seu estilo delicioso, pega o leitor pela mão e divide com ele a intimidade de times bem diferentes das potências de chuteiras que costumam ocupar o noticiário.

Nas histórias, aparecem times como o Baraúnas, o Sampaio Corrêa, o Alecrim. E, claro, o inigualável Íbis Sport Club, de Pernambuco, que se vangloria de ser o pior time do mundo em todos os tempos. Da equipe pernambucana, Simas pescou o personagem que dá título ao livro, Mauro Shampoo, artilheiro de um gol só.

As figuraças do futebol

As crônicas do novo livro de Simas são povoadas por atletas anônimos como Shampoo. A inusitada escalação do Vila de Cava, de Nova Iguaçu, por exemplo, não deixa dúvidas: Elizângela, Camunga, Carlinhos Nem Fudendo, Mão Branca e Tornado; Jorge Macaco, Capiroto e Corno Manso; Curupira, Abecedário e Aderaldo Miquimba.

Em um desses textos divertidos, o autor relata a inacreditável partida entre o Vila de Cava e o Vale das Almas Esporte Clube, time dos funcionários do Cemitério de Ricardo de Albuquerque. O leitor pode escolher aletoriamente: qualquer uma das crônicas de “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea” tem esse humor.

Além dos jogadores, há nas páginas outros personagens do universo do futebol bem diferentes dos glamurosos de hoje. Como o juiz Mário Vianna, que saía no braço com jogadores ou com a torcida cada vez que era provocado.

Infelizmente, Simas não acredita que o estilo particular de esquadrões como o Íbis ou de figuras como Mauro Shampoo vá resistir por muito tempo. “Acho que está com os dias contados”, lamenta. “Mas, ao mesmo tempo, acredito nos cavalos de santo, nas frestas, na subversão da morte pela festa. Fico entre a desilusão e uma esperança”.

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