Relojoaria mais tradicional do Rio, a Casa Leal, completa 180 anos de existência

A preciosidade de Ipanema que ainda resiste ao tempo

Por O Dia

Rio - O tempo passa, o tempo voa, e a Casa Leal, relojoaria mais tradicional do Rio, que fica em Ipanema, resiste a ele. Um dos últimos estabelecimentos do país especializados no conserto, restauração e venda de relógios antigos, do início do século 19, movidos a pêndulos e carrilhões, tanto de chão como de paredes e mesas, completa 180 anos de existência. 

Alda Lemos%2C de 71 anos%2C está à frente da história loja na Zona SulMárcio Mercante / Agência O Dia

À frente do histórico empreendimento, Alda Lemos, de 71 anos, herdeira do marido, Gilson Rodrigues Pereira, que morreu em 2011, aos 65 anos, resume o motivo da resistência. “Paixão por relógios, pontualidade, lógico, e compromisso com a qualidade dos serviços. Relógio para nós é coisa séria, pois marcam nossos momentos mais felizes”, justificou Alda, que conta com a ajuda da filha única, Amanda Rodrigues, de 25 anos, na administração dos negócios, iniciados com um casal português na Uruguaiana, no Centro. “O encanto da minha mãe pela Casa Leal (que tem filial em Copacabana) é tão grande, que ela vive dizendo que se morrer e eu vender a loja, vai me puxar os pés à noite”, brincou. “Mas jamais farei isso. E espero passar a tradição para minhas filhas, Isabela (6), Camile (2) e Beatriz (dois meses)”, declarou Amanda.

Aldenis Martines de Jesus%2C um dos experientes‘técnicos artesãos’da Casa Leal%2C recupera relógios vindos de várias partes do BrasilMárcio Mercante / Agência O Dia

Entre as mais de 500 unidades para consertos de máquinas e restauros de gabinetes do acervo— protegido por seguranças, câmeras de vídeos e alarmes de última geração—, estão exemplares raros de relógios suíços e alemães, de 1813, que tocam até três tipos de músicas e custam R$ 20 mil. Há também relógios mais modernos, inclusive de bolso e de pulso, de marcas famosas, como Cartier, Rolex, Vacheron Constantin, IWC e Patek Philippe.

Um dos orgulhos de Alda é sua equipe, formada por cinco experientes técnicos, que recuperam relógios vindos de várias partes do Brasil, como São Paulo, Belo Horizonte, Cuiabá, Brasília e Amazonas. Para alguns verdadeiros tesouros, com mais de 150 anos, somente são encontradas peças como eixos, engrenagens, platinas, molas e ponteiros, no exterior. “Rodamos o mundo, se for preciso. Em último caso, nós confeccionamos peças”, contou Aldenis Martines de Jesus, 35, um dos funcionários.

Alda Lemos%2C de 71 anos%2C está à frente da história loja na Zona SulMárcio Mercante / Agência O Dia

Engraxate virou funcionário padrão e herdou loja

O casal português que deu vida à Casa Leal empregou um engraxate que ficava em frente à loja: Nestor Rodrigues, sogro de Alda. Com o tempo, Nestor se transformou em funcionário padrão. Como gratidão, o casal, que não tinha filhos, deixou a loja de presente para ele.

Entre os fiéis clientes da Casa Leal, está o aposentado Latino Fontes, 86, de Copacabana. Ele tem uma coleção de relógios antigos, alguns vindos da Europa, quando o Brasil ainda era colônia de Portugal.

“Não consigo viver mais sem o tic-tac das batidas das horas e as músicas dessas raridades (reproduzindo composições elaboradas para os sinos de grandes catedrais, como as de Notre Dame, Websminster, Canterbury e Whittington)”, confessou Latino.
Empresas de manutenções de relógios antigos são tão escassas no estado que, na Associação dos Joalheiros e Relojoeiros do Rio de Janeiro (Ajorio), não há mais sequer uma associada.

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