Advogado de bandido propõe acordo para cessar confrontos na Rocinha

Defensor diz que transferência de criminoso preso em Rondônia reduziria violência no local. Governo diz que "não dialoga com traficantes"

Por O Dia

Rio - O advogado Jaime Fusco que defende o traficante Antonio Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, quer negociar com a Secretaria de Segurança propostas para a redução da criminalidade, mesmo que isso acarrete em negociar com os chefes do tráfico.

Em entrevista à rádio BandNews, Fusco disse que "a ideia é estabelecer uma trégua. Mas não uma trégua de corredor. É um acordo institucionalizado. E aquelas pessoas que estão em presídios federais estão à disposição disso". O advogado é presidente da Comissão de Segurança Pública da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas, grupo que irá se reunir na sexta-feira para debater as medidas que serão propostas aos governos estadual e federal.

Um blindado da UPP da Rocinha circula pela comunidade%3A três dias depois dos confrontos de domingo entre traficantes rivais%2C 20% dos moradores ainda estavam sem luzSandro Vox / Agência O Dia

"Sou um representante do Nem na Justiça, não no mundo do crime. Como representante na Justiça, ele por diversas vezes, no presídio de segurança, em conversas gravadas, já falou 'esses roubos de carga, esse aumento dos índices de criminalidade, isso é um absurdo. Doutor, a gente está aqui há muito tempo. Se a gente voltasse para o Rio esse problema acabava", relatou. Fusco foi procurado pelo DIA mas não retornou as ligações.

A Secretaria de Segurança Pública afirmou que não vai se pronunciar a respeito, enquando o Governo do Estado disse, em nota, que não negocia com traficantes. Por nota, o procurador-geral da Justiça no Rio, Eduardo Gussem, falou que "a referida proposta é inconcebível". "O Ministério Público não reconhece a legalidade da mesma e esclarece que o cumprimento da pena por parte dos presos condenados deve obedecer os princípios constitucionais e as normas previstas na Lei de Execução Penal", acrescentou.

Fachada de casa na Rocinha é um triste retrato da guerra de domingoWhatsApp O DIA (98762-8248)

Fusco não comentou a respeito do seu cliente ser apontado como mandante da invasão na Rocinha, no domingo, que provocou horas de tiroteios. Nas ruas da favela ontem havia mais policiamento. Algumas pessoas resolveram sair após ficarem por dias confinadas em suas casas.

Foi o caso de uma moradora de 36 anos, que permaneceu em sua residência por três dias. "Estava presa dentro de casa desde sexta-feira com as minhas filhas. Hoje que consegui sair, pois está tudo calmo onde eu moro. Estou indo trabalhar e levar elas à escola. Mas tenho que voltar antes do toque de recolher", disse. O toque é divulgado nas redes sociais por traficantes.

Apesar disso, na parte alta da comunidade, bandidos teriam proibido moradores de saírem de casa. "No domingo eu estava indo para a missa quando um bandido me parou na rua. Ele me perguntou onde eu ia e eu falei. O rapaz me disse: 'Tia, volta. Vai rezar na sua casa'", contou a idosa de 71 anos.

500 casas ainda sem luz

Aproveitando a presença da Polícia Militar na Rocinha, as concessionárias de água, luz e limpeza fizeram os reparos nas áreas mais afetadas. Mesmo assim, em algumas localidades da comunidade continuavam sem energia ontem. "Em função das condições do local, não foi possível executar todo o serviço necessário e por este motivo, 500 clientes estão sem energia", informou a Light.

A Comlurb retirou 13 toneladas de lixo. O comércio reabriu, assim como a Unidade de Pronto Atendimento, a Clínica da Família e o Centro de Atenção Psicossocial Maria do Socorro Santos. Uma funcionária da UPA, que preferiu não se identificar, contou que 200 pessoas costumam ser atendidas diariamente no local. "Precisamos ser mais fortes que a violência. Na segunda, quando mandaram fechar, até chorei. Imagina esse lugar que atende pessoas carentes, fechado por causa do tráfico", lamentou.

'Briga para mostrar serviço gera desgastes', diz general

Apesar de dizer que não há problemas de integração entre as Forças Armadas e a Secretaria de Segurança, o chefe do Comando Militar do Leste, general Braga Netto, disse que "a briga para mostrar serviço gera desgastes".

Em palestra na Associação Comercial do Rio, ele comentou que uma grande apreensão divulgada pela Polícia Civil, por exemplo, seria parcialmente fruto do trabalho das Forças Armadas. "Mas não queremos protagonismo, queremos que as operações funcionem", declarou.

Ele enfatizou que não há problemas entre os militares e as forças estaduais. "Às vezes temos alguns mal-entendidos, mas não é uma crise, acontece em qualquer relacionamento", completou.

No domingo, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse que "falta sinergia entre as Forças Armadas e a Secretaria de Segurança". Ontem, o secretário de Segurança, Roberto Sá, afirmou que a declaração do ministro o surpreendeu e refutou a falta de integração.

Jungmann, em contrapartida, voltou a defender uma intervenção federal no Rio. "Precisamos de juízes e procuradores dedicados anos a fio a enfrentar esse estado paralelo e que está associado em alguma medida ao crime; a estrutura que ali está, uma parte dela é sadia, outra parte não é. De fato é preciso que essa parte sadia colabore e trabalhe com a força tarefa federal para que possamos (derrotar) esse estado paralelo associado ao crime", afirmou.

Exército faz megaoperação para buscar uma pistola

Fora das ruas do Rio há um mês, as Forças Armadas quebraram o jejum em uma operação - sem relação com o apoio ao Plano 'Rio Quer Segurança e Paz' ontem, nas comunidades Muquiço e Palmeirinha, em Guadalupe. O objetivo era recuperar uma única pistola, roubada de um sargento que abandonou o posto para encontrar uma namorada, segundo o general Walter Braga Netto, do Comando Militar do Leste. Aproveitando a Garantia de Lei e Ordem em vigor, militares revistaram moradores e até crianças em busca da arma.

Exército faz operação em Guadalupe para recuperar uma única armaDivulgação

A operação de ontem, porém, contou com um grande contingente de homens, e até veículos blindados. "Queríamos evitar troca de tiros. Temos muitos homens, o que parece muito para vocês pode ser pouco para nós", justificou o general. A arma foi devolvida por meio de um líder comunitário local e ninguém foi preso. Os militares, com o poder garantido pelo decreto de Garantia da Lei e da Ordem em vigor, revistaram moradores.

Segundo o comandante,o atraso nos repasses financeiros foi uma questão burocrática: "Os recursos começaram a chegar. Com o Ministério da Defesa, decidimos antecipar nossas planilhas de gastos de hoje em diante, para que os repasses não demorem tanto".

Em palestra na Associação Comercial do Rio, ontem, o general também elogiou os resultados das operações que o CML realizou, especialmente em repressão ao tráfico de drogas e roubos de cargas. "Não quero dizer que o problema está resolvido, mas passar mensagem de otimismo. Matar bandidos não resolve, estamos nos articulando e queremos nos antecipar e não só reagir. Vamos bater onde dói",afirmou.

Colaborou a estagiária Nadedja Calado

Últimas de Rio De Janeiro